- Em 5 de novembro de 2015, rompimento da Barragem de Fundão liberou 40 milhões de m³ de rejeitos no Rio Doce, atingindo o litoral e levando 19 mortes, com impactos na pesca, abastecimento e ecossistema.
- Dez anos depois, estudo da Universidade Federal do Rio de Janeiro mostra como é difícil medir o tamanho do dano sem dados de linha de base sobre o ecossistema antes do desastre.
- Macroalgas são usadas como bioindicadoras, mas apresentam grande variação sazonal e espacial, exigindo séries temporais e replicação para interpretar sinais de contaminação e eutrofização.
- A pesquisa destaca falhas no monitoramento marinho brasileiro: falta de linha de base impede distinguir variações naturais de danos causados pela atividade humana, gerando litígios e incertezas.
- Embora exista o Programa de Pesquisa Ecológica de Longa Duração, o Brasil ainda tem grandes lacunas de monitoramento ao longo de milhares de quilômetros de costa, o que compromete metas internacionais de biodiversidade e planejamento de políticas ambientais.
O rompimento da Barragem de Fundão, em 5 de novembro de 2015, lançou 40 milhões de m³ de rejeitos no Rio Doce. Parte percorreu 650 km até o litoral do Espírito Santo, levando contaminantes ao longo do leito do rio. A tragédia matou 19 pessoas.
A pesquisa liderada pela UFRJ, publicada na Environmental Monitoring and Assessment, usa dados antecedentes escassos e monitoramento dos recifes costeiros para entender o impacto. O estudo aponta falhas no monitoramento marinho brasileiro.
Essa deficiência envolve a ausência de linhas de base compatíveis com a geografia e a magnitude do risco. Sem dados prévios, fica difícil separar variações naturais de efeitos causados por atividades humanas na região.
Macroalgas
As macroalgas são indicadores de eutrofização e contaminação, mas apresentam variação espacial e temporal alta. Por isso exigem séries temporais e replicação para sinais serem interpretados com confiança.
Os recifes do Espírito Santo abrigam a maior diversidade de macroalgas do Atlântico Sul ocidental. O monitoramento contínuo desde 2018 ocorre com apoio de CNPq e FEST, em áreas como a APA Costa das Algas e o REVIS de Santa Cruz.
Monitorar não é custo; é infraestrutura ambiental
Linha de base não é detalhe metodológico. Sem ela, fica difícil diferenciar flutuações naturais de danos ou de benefícios ambientais provocados pela atividade humana. A avaliação perde força explicativa.
Em Fundão, empreendimentos industriais e obras emergenciais, ao lado do desastre, elevam a necessidade de monitoramento robusto. A falta de dados pré-cessos aumenta incertezas e disputas técnicas.
Para licenciadores, o desenho do monitoramento precisa refletir o tamanho do risco. Isso evita que custos menores no curto prazo gerem problemas maiores no longo prazo.
Lições do desastre
O Fundão mostrou que danos não cessam com o fim da lama. Eles persistem nas cadeias tróficas, nos sedimentos e na economia local. A falta de linha de base dificulta a quantificação do dano em perícias.
O Brasil deve tratar o monitoramento como infraestrutura estratégica, semelhante à defesa da soberania na Amazônia Azul. Medir antes é essencial para avaliar danos depois e cumprir compromissos internacionais.
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