- Transtorno de jogos de azar é reconhecido como problema de saúde pública, com apostas online e caça-níqueis virtuais ampliando o risco e impactando saúde mental, família e vida social.
- A classificação científica evoluiu: em dois mil e treze o transtorno passou a ser ligado a dependências químicas; em dois mil e vinte e dois a CID-11 reconheceu o transtorno de jogos eletrônicos, incluindo bets.
- O levantamento Lenad III, da Unifesp, aponta quase onze milhões de brasileiros com comportamento de risco (7,3%), e cerca de 1,4 milhão com sintomas do transtorno; 9 milhões já usam sites de apostas esportivas (5,6% da população), com alto percentual de risco.
- A disponibilidade 24 horas, a repetição rápida e o cash out nas plataformas digitais ajudam a manter padrões compulsivos, levando ao endividamento e a alterações nas relações familiares.
- Medidas anuncias pelo governo incluem proibição de menores de dezoito anos, bloqueio de publicidade para jovens e teleatendimento do SUS para triagem e encaminhamento; é necessária regulação, redução de danos e campanhas de esclarecimento para evitar estigma e buscar ajuda.
O transtorno de jogos de azar já é tratado como uma questão de saúde pública no Brasil. A popularização das apostas online e dos caça-níqueis virtuais ampliou o acesso e elevou o risco de dependência, afetando saúde mental e vínculos familiares.
Estudos apontam dados saídos do Lenad III, da Unifesp. Em 2025, quase 11 milhões de brasileiros apresentavam comportamento de risco ou problemático, com 1,4 milhão exibindo sintomas de transtorno do jogo. A perda de controle é a marca principal.
Apesar de grande parte dos jogadores ainda preferir loterias físicas, 9 milhões participam de sites de apostas esportivas, segundo a pesquisa. Cerca de 66,8% desse grupo já mostra risco alto, e 26,8% entre os demais jogadores.
A evolução ocorre pela natureza das plataformas digitais: acesso 24 horas, recursos de repetição rápida e cash out criam sensação de controle. O tempo de espera reduz, favorecendo padrões compulsivos de jogo.
O risco se agrava quando o jogador ultrapassa limites, sente ansiedade ou culpa e recorre à tentativa de recuperar perdas. O endividamento e a ruptura de relações familiares são comuns em quadros graves.
Grupos mais vulneráveis incluem usuários de plataformas digitais, adolescentes e quem recebe menos de um salário mínimo. Medidas já vêm sendo aplicadas, como restrição a menores de 18 anos e bloqueio de publicidade voltada a jovens, além de limitar contas de beneficiários de programas sociais.
Essa última medida ganhou respaldo após relatório do Banco Central de 2024, que indicou R$ 3 bilhões destinados a bets por esse público em agosto daquele ano. O STF confirmou a proibição de acesso de beneficiários a sites de aposta.
O SUS enfrenta o crescimento do problema: há carência de protocolos de triagem, diagnóstico e tratamento, e muitos profissionais não possuem formação específica para distúrbios de comportamento. CAPS não foram criados para esse tipo de transtorno.
Panorama de atuação
O Ministério da Saúde anunciou o lançamento do primeiro serviço de teleatendimento do SUS voltado às apostas. Um autoteste, com base no protocolo PGSI, ajuda a classificar o risco e orientar encaminhamentos para teleconsultas ou CAPS.
O objetivo é ampliar o acesso a avaliação, diagnóstico e apoio terapêutico, especialmente para quem tem menor risco, que pode ser direcionado a CAPS locais. O atendimento online busca reduzir barreiras de deslocamento.
Caminhos regulatórios
Especialistas defendem a regulação do mercado com foco em redução de danos nos aplicativos, incluindo pausas forçadas, limites de bônus e ferramentas de autoexclusão. Também é defendida a rastreabilidade de comportamento de risco.
A implementação enfrenta o desafio de atuação de plataformas com sede fora do Brasil e operações às margens da lei. Paralelamente, campanhas de esclarecimento devem combater o estigma e incentivar a busca por ajuda.
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