- Estudos mostram que dose diária de aspirina pode reduzir risco de câncer colorretal em pessoas com síndrome de Lynch, conforme estudo histórico com 861 pacientes, acompanhados por 10 anos.
- Na dosagem de 600 mg por pelo menos dois anos, houve queda de cerca de metade no risco de câncer colorretal; resultados com dose menor (75–100 mg) aparecem promissores.
- Países passaram a adaptar orientações, com alguns recomendando aspirina como proteção adicional para grupos de maior risco, sempre sob supervisão médica.
- Pesquisas ainda investigam mecanismos: a aspirina pode inibir a enzima Cox-2 e, possivelmente, ativar respostas do sistema imune contra células cancerosas.
- Estudos em andamento avaliam efeitos em outros tipos de câncer; um estudo com 11 mil pacientes no Reino Unido, Irlanda e Índia deve trazer resultados no próximo ano.
A aspirina, tradicional analgésico, pode ter função na prevenção de certos cânceres, segundo estudos recentes. Pesquisas indicam que doses diárias da droga podem reduzir o risco de desenvolvimento e de disseminação de tumores, influenciando políticas de saúde em alguns países.
Nick James, britânico de 45 anos, participou do estudo que avalia a possibilidade de a aspirina proteger contra o câncer. Diagnósticos familiares de câncer colorretal o levaram a testar genes, revelando uma mutação associada à síndrome de Lynch. Ele foi a primeira pessoa a ingressar no estudo.
A pesquisa investiga se uma dose diária de aspirina pode reduzir a incidência de câncer em pessoas com alto risco genético. A participação de James dura dez anos, e os resultados iniciais apontam redução no risco de câncer colorretal entre os pacientes.
No estudo, uma dose de 600 mg foi associada à metade do risco de câncer colorretal após pelo menos dois anos de uso. Resultados preliminares de uma segunda pesquisa, com dose menor, indicam eficácia similar ou superior em 75-100 mg.
Evidências crescentes
A aspirina já era associada à prevenção de eventos cardiovasculares, o que motivou recomendações de uso em alguns pacientes de alto risco. Em 2020, estudo histórico associou a droga à redução na incidência de câncer em grupos específicos, ampliando o interesse científico.
A busca por comprovação em população geral é desafiadora, devido ao tempo necessário para o desenvolvimento de câncer e aos custos de ensaios amplos. Pesquisadores também buscam entender quais mutações elevam o benefício da droga.
O estudo de Burn, envolvendo pacientes com síndrome de Lynch, acompanhou 861 voluntários por 10 anos e mostrou benefício significativo com aspirina diária. O pesquisador ressalta que a dose menor está sob avaliação.
A equipe de Burn aponta que a aspirina de 75-100 mg pode ter equivalente efeito protetor. Em comparação, a dose de 600 mg é mais alta, com potencial para efeitos colaterais.
As evidências atuais já influenciam políticas públicas. No Reino Unido, diretrizes passaram a considerar a aspirina na proteção de pacientes com maior risco de câncer, com supervisão médica.
Um ponto-chave é o equilíbrio entre benefícios e riscos. A aspirina pode provocar gastrite, sangramento e hemorragias, o que motiva a cautela sobre uso indiscriminado e reforça a necessidade de orientação médica.
Como funciona?
A explicação sobre o mecanismo ainda não é definitiva. Uma enzima intracelular, a Cox-2, é inibida pela aspirina, reduzindo prostaglandinas que promovem crescimento celular descontrolado.
Pesquisas recentes sugerem uso adicional do tromboxano A2, fator coagulante que facilita metástase. A aspirina, ao inibir esse composto, pode tornar células cancerosas mais visíveis ao sistema imune.
Estudos em camundongos mostraram esses efeitos, mas não há confirmação direta em humanos. Dados de pacientes com câncer colorretal ou gastroesofágico indicam níveis elevados de tromboxano após tratamento, sugerindo possível relação com metástase.
A investigação continua para confirmar se esses mecanismos ajudam na proteção contra diferentes tipos de tumor e em quais populações o benefício é mais evidente.
Embora ainda haja dúvidas, pesquisadores destacam a importância de replicar resultados. Langley lidera estudo randomizado com 11 mil pacientes no Reino Unido, Irlanda e Índia para avaliar doses de 100 ou 300 mg.
Langley enfatiza a necessidade de confirmação antes de recomendações amplas. A equipe também planeja investigar mutações específicas em outros tipos de câncer, buscando validação externa dos resultados.
Perspectivas e cautela
Ainda não há consenso sobre a indicação de aspirina como medida preventiva para a população em geral. Pesquisadores defendem uso restrito a grupos com alto risco, devido aos potenciais efeitos adversos.
Burn, que também já usou aspirina preventivamente, mantém otimismo sobre ganhos em saúde pública, desde que haja orientação médica. Martling alerta para riscos e ressalta que a droga pode não funcionar para todos os cânceres.
Quem tem síndrome de Lynch ou já passou por câncer colorretal pode considerar conversar com o médico sobre a possibilidade de uso de dose diária como prevenção, sempre com supervisão profissional.
O avanço da pesquisa sugere novas possibilidades terapêuticas, e futuros resultados devem esclarecer quais pacientes podem se beneficiar e quais doses são mais apropriadas. A comunidade científica continua acompanhando os desdobramentos.
Observação: este conteúdo oferece informações gerais e não substitui o aconselhamento médico. Consulte sempre um profissional de saúde quanto a dúvidas sobre uso de aspirina.
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