- Calor extremo é visto como risco sistêmico para a segurança alimentar, afetando lavouras, rebanhos, pesca, florestas e a produtividade no campo, segundo a FAO e a OMM.
- Em cenários de altas emissões, quase metade do rebanho bovino mundial pode ficar exposto a calor perigoso até 2100, com perdas anuais próximas de US$ 40 bilhões em carne e leite; em cenários de baixas emissões, o valor cai para US$ 15 bilhões.
- A cada grau de aquecimento acima de 30°C, animais reduzem ingestão de ração entre 3% e 5%; vozes de rebanho enfrentam estresse térmico acima de 25°C. Grandes culturas já apresentam quedas de produtividade com cada 1°C de aquecimento: milho 7,5%, trigo 6,0%, soja 6,8% e arroz 1,2%.
- No Brasil, a safra de soja caiu de 162 milhões de toneladas estimadas para 147,7 milhões até maio de 2024; no Centro-Oeste houve aumento de dias com risco de fogo e, no Rio Grande do Sul, houve perdas na soja, milho e arroz durante 2024.
- Recomendações envolvem agricultura regenerativa, cultivares mais tolerantes ao calor, manejo de solo e água, alertas precoces e serviços climáticos, com ênfase na cooperação internacional e na transição para uma economia de baixo carbono.
O calor extremo deixou de ser apenas uma questão climática e passou a ameaçar o agronegócio mundial, incluindo o sustento de mais de 1 bilhão de pessoas. Relatório conjunto da FAO e da OMM, divulgado nesta terça-feira, 22, mostra que altas temperaturas afetam lavouras, rebanhos, pesca, florestas e a produtividade no campo.
O estudo aponta que o calor atua como risco sistêmico para a segurança alimentar e para os modos de vida de 1,23 bilhão de trabalhadores ligados à agricultura. Alertas precoces e serviços climáticos são considerados essenciais para adaptar o setor a essa nova realidade.
O relatório destaca que, além do impacto direto, o calor extremo aumenta secas, incêndios, falta d’água, pragas e doenças, elevando a vulnerabilidade em várias regiões do planeta. Culturas sofrem perdas acima de 30°C; rebanhos entram em estresse térmico acima de 25°C.
Planeta mais quente pressiona lavouras, rebanhos e produtividade
Em média, a produção global de milho cai 7,5% por cada 1°C de aquecimento, trigo 6,0%, soja 6,8% e arroz 1,2%. Projeções indicam quedas de 4% a 10% para milho e trigo por cada grau adicional. A combinação calor e seca pode superar 30% de perdas em áreas atingidas.
Na pecuária, o estresse térmico eleva o risco financeiro. Em cenários de altas emissões, quase metade do rebanho bovino mundial pode estar exposto a calor perigoso até 2100, com perdas anuais de cerca de US$ 40 bilhões em carne e leite (valores de 2005). Em cenários de baixas emissões, o impacto cairia para US$ 15 bilhões por ano.
Quase 80% do rebanho bovino global estaria exposto a calor estressante por 30 dias ou mais ao longo do ano. Entre animais e aves, 8% a 20% da população já enfrenta pelo menos um dia anual de estresse térmico. Cada grau acima de 30°C reduz ingestão de ração em animais entre 3% e 5%.
O relatório ainda aponta que, entre 1992 e 2020, 88 milhões de hectares foram incorporados à produção em 110 países, gerando 21,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalente em emissões ligadas à expansão. A perda de produtividade total dos fatores na agricultura foi estimada em 21%.
Brasil já sente o impacto no campo
O Brasil é citado como exemplo dos efeitos do calor extremo sobre o agro. A projeção para a safra de soja caiu de 162 milhões para 147,7 milhões de toneladas até maio de 2024, uma redução de quase 10%. Em São Paulo, as perdas chegaram a mais de 20% para a soja e 10% para o milho de primeira safra.
Durante o auge do evento climático, a temperatura máxima diária ficou mais de 5°C acima da média em algumas áreas por meses, agravando a seca e aumentando o risco de incêndios. No Centro-Oeste, dias acima do limiar de fogo subiram em cerca de 40 pontos percentuais, para cerca de 150 dias.
No Rio Grande do Sul, enchentes históricas entre abril e maio de 2024 elevaram as perdas, com arroz retratando queda de 3,6% e até 2 milhões de toneladas de soja ainda não colhidas destruídas. O estado registrou perdas agrícolas de R$ 1,2 bilhão e danos em 600 mil hectares de pastagens.
> A secretária-geral da OMM ressalta que o calor extremo está definindo as condições dos sistemas agroalimentares. A FAO e a OMM defendem ações de adaptação, como cultivares e raças mais tolerantes ao calor, manejo de solo e água, janelas de plantio ajustadas e alertas precoces.
As instituições entendem que proteger a produção global requer ampliar a resiliência no campo, fortalecer cooperação internacional e acelerar a transição para uma economia de baixo carbono. No Dia da Terra, sinalizam que limites de adaptação existem sem redução mais robusta de emissões.
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