- Estudo brasileiro de mais de vinte anos acompanhou áreas da Amazônia no Mato Grosso afetadas por incêndios, com pesquisa publicada na Proceedings of the National Academy of Sciences (PNAS).
- Conclusão principal: a floresta não vira savana, mas sofre empobrecimento e perde biodiversidade, tornando-se mais vulnerável ao fogo.
- A regeneração ocorre parcialmente após a queima, com retorno de árvores em cerca de dez anos, mas espécies de crescimento lento foram substituídas por generalistas mais rápidas.
- Efeitos de borda e frequência de incêndios afetam fortemente a combinação de estrutura, diversidade e carbono; em bordas, perda de até 95% dos indivíduos arbóreos foi observada.
- Os autores destacam que recuperação e ponto de não retorno não são mutuamente exclusivos e que resultados podem não ser generalizáveis para toda a Amazônia, já que o estudo foi realizado em uma única região.
Amazônia pode não se converter em savana, mas os incêndios deixaram a floresta mais fraca e alteraram sua composição. Observação de 20 anos em áreas queimadas no Mato Grosso aponta que a regeneração é parcial, com perdas de biodiversidade e maior vulnerabilidade ao fogo.
O estudo, publicado na Proceedings of the National Academy of Sciences, reuniu pesquisadores da Universidade de Yale e do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, com apoio do Instituto Serrapilheira. A análise acompanha áreas marcadas pela ação do fogo entre 2004 e 2010.
O experimento foi iniciado em 2004 na Estação Tanguro, com três áreas de 50 hectares. Uma permaneceu intacta, outra foi queimada anualmente, e a terceira, a cada três anos, permitindo comparar impactos e frequência do fogo.
Regeneração parcial e mudança de espécies
Ao cessar os incêndios em 2010, árvores voltaram a surgir, seja por rebrotamento, seja por sementes no solo. Em cerca de uma década, a estrutura da floresta voltou perto dos níveis originais, com sombra recuperando o dossel.
Porém, a composição florestal mudou. Espécies de crescimento lento e madeira densa foram as mais afetadas, enquanto espécies mais rápidas e generalistas ocuparam o espaço, reduzindo a diversidade de plantas e de animais.
Essa perda de diversidade pode afetar o funcionamento do ecossistema. Espécies que ajudam na dispersão de sementes, como antas e macacos, passaram a ter menos oportunidades de cumprir seus papéis, dificultando a regeneração.
Efeitos nas bordas e dinâmica dos incêndios
Nas bordas da floresta, próximas a áreas desmatadas, os impactos foram mais intensos, com quedas de até 95% no número de árvores. Microclimas mais quentes e secos ajudam a manter o fogo ativo nessas regiões.
A frequência de queimadas também mostrou efeito cumulativo. Em alguns casos, queimadas menos frequentes foram mais destrutivas, pois houve acúmulo de material combustível antes do fogo. A repetição ao longo do tempo é decisiva para a erosão ecológica.
Limites da recuperação e risco de savanização
Os autores destacam que não há evidência de uma savanização generalizada, mas o estudo não a descarta. Incêndios recorrentes ou mudanças climáticas futuras podem degradar o ecossistema de forma duradoura.
Mesmo em áreas não queimadas, mudanças ocorrem, possivelmente associadas a secas mais intensas e ventos fortes. Esses fatores apontam para uma resposta da Amazônia a pressões climáticas amplas, além do fogo.
Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que a recuperação é possível sem novos incêndios, desde que haja conservação de áreas ao redor. A degradação continuada, no entanto, pode inviabilizar esse retorno.
Fonte principal: estudo realizado por pesquisadores da Yale, Ipam e parceiros, publicado na PNAS, com apoio do Instituto Serrapilheira. Limitação: o trabalho se concentrou em uma única região da Amazônia, não sendo, ainda, generalizável para toda a floresta.
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