- Pesquisa da USP avalia fluoxetina, antidepressivo, no tratamento de doenças inflamatórias, estudando a resposta de macrófagos a vírus inativado da covid-19.
- Medicamento não mata o vírus, mas reduz a agressividade da infecção, atenuando sintomas e gravidade, o que pode orientar decisões clínicas em pacientes que já usam a droga.
- Mecanismo observado: a fluoxetina pode atuar em enzimas citoplasmáticas chamadas esfingomielinases ácidas, alterando lipídios da membrana e modulando a resposta inflamatória.
- As alterações lipídicas reduzem a produção de moléculas pró-inflamatórias, como IL-6 e IL-1β, e parecem diminuir a ativação de macrófagos.
- O estudo foi in vitro, com ressalva de que resultados em células isoladas não equivalem a eficácia em humanos; pesquisas anteriores ajudam a embasar a interpretação molecular.
A fluoxetina, medicamento tradicionalmente usado no tratamento de depressão e ansiedade, foi avaliada em estudo da USP Ribeirão Preto como possível moduladora da resposta imune contra o SARS-CoV-2. Em experimento de laboratório, macrófagos expostos a vírus inativado mostraram que a droga não elimina o vírus, mas reduz sua agressividade, atenuando sintomas e gravidade da infecção.
A pesquisa, liderada pelo Grupo de Estudos em Biotecnologia e Imunoquímica de Lipídios (GeBIL) na FFCLRP, analisou o metabolismo de lipídios membranais. Ao inibir enzimas de esfingolipídeos, especialmente a esfingomielinase ácida, houve redução de citocinas pró-inflamatórias como IL-6 e IL-1β, associada à tempestade de citocinas.
O primeiro autor é o doutorando Jonatan Constança Silva de Carvalho. Os macrófagos foram usados isoladamente, com vírus inativado, para simular a infecção sem carga viral. A partir de análises com espectrometria de massas, foi possível observar alterações na composição lipídica das células tratadas com fluoxetina.
Segundo Carlos Sorgi, docente da FFCLRP e líder do GeBIL, a chave está na interação com as membranas celulares. O estudo sugere que a fluoxetina atua no início do processo inflamatório, antes da montagem da resposta imune, de modo a tornar as células menos receptivas ao reconhecimento e à fusão do vírus.
Pesquisas anteriores já indicavam ação da fluoxetina sobre esfingolipídeos, reduzindo a inflamação. A nova investigação também examinou vesículas extracelulares (VEs), responsáveis pela comunicação entre células e potencial propagação de sinais inflamatórios durante infecções virais.
Os dados mostram que, mesmo sem reduzir a quantidade de VEs, a fluoxetina altera sua composição, tornando-as menos inflamatórias. Como resultado, a ativação de macrófagos vizinhos tende a ser menor, contribuindo para uma resposta menos grave em cenários deCOVID-19.
O estudo aponta dois pilares: menor produção de ceramida pela via da esfingomielinase ácida, o que dificulta o reconhecimento viral; e conteúdo de VEs menos inflamatório, influenciando células receptoras ao redor. Em conjunto, esses efeitos podem ajudar a manter a homeostase durante a infecção.
A coordenação da pesquisa ressalta que os resultados são baseados em testes in vitro. Ainda assim, pesquisas anteriores fortalecem a compreensão molecular observada, sugerindo um possível mecanismo de ação que pode embasar futuros desdobramentos clínicos.
Pesquisadores destacam que o uso da fluoxetina deve ocorrer apenas com orientação médica. Não há indicação de uso sem prescrição, e o estudo não substitui tratamentos aprovados para COVID-19. A equipe ressalta a necessidade de novas etapas para confirmar eficácia em pacientes.
Fontes envolvidas na pesquisa incluem a FFCLRP da USP e o Jornal da USP, com apoio de colegas da área de lipídios e imunologia. Os autores enfatizam a importância de evidências adicionais antes de qualquer aplicação clínica ampla.
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