- A descarbonização das máquinas agrícolas está na Agrishow com várias soluções em diferentes estágios—etanol, biometano, gás natural, hidrogênio, eletrificação e diesel renovável—sem rota única definida.
- O etanol aparece como aposta forte no Brasil, com motores desenvolvidos para uso agrícola pesado pela FPT Industrial; investimentos da empresa na América Latina passam de R$ 130 milhões para R$ 250 milhões até 2028.
- Na prática, a maior parte das tecnologias está em validação: a Case IH testa colheitadeira e trator movidos a etanol, com cerca de 800 horas de uso do trator e safras ainda pela frente.
- O biometano já é visto como etapa mais adiantada por Valtra, Massey Ferguson e Fendt, com mais de 20 mil horas de operação em campo; lançamento comercial deve ocorrer em 2027.
- Em hidrogênio, a JCB aposta em motores a combustão movidos a hidrogênio em vez de baterias, citando desafios de infraestrutura e peso das baterias; avaliação segue no Brasil com parcerias acadêmicas e empresariais.
A descarbonização das máquinas agrícolas ganhou espaço na Agrishow, mas sem um consenso claro. Em Ribeirão Preto (SP), montadoras apresentaram diversas vias: etanol, biometano, gás natural, hidrogênio, eletrificação e diesel renovável, em diferentes estágios de maturidade.
A maior parte das soluções exibidas está em fase conceitual ou de testes, com validação de durabilidade e viabilidade operacional em campo. As empresas destacam que o desafio não é apenas reduzir emissões, mas adaptar motores à realidade rural, com potência estável, autonomia e abastecimento.
Executivos ouvidos na feira defenderam uma transição gradual e regionalizada, alinhada à matriz energética de cada país. Ainda assim, há a expectativa de que alternativas mais sustentáveis avancem para adoção futura, com foco na viabilidade técnica.
Etanol
Entre as apostas, o etanol surge como caminho possível para o Brasil, por proximidade com o agronegócio e infraestrutura existente. A FPT Industrial, do grupo Iveco, trabalha com motores desenvolvidos para uso agrícola pesado a etanol.
Segundo Bernardo Brandão, presidente da FPT para a América Latina, o etanol pode reduzir emissões em até 90%. A mudança exige nova arquitetura de funcionamento em relação ao diesel tradicional, com sistemas de ignição diferentes.
Motores movidos a etanol já passam por testes em tratores, colheitadeiras e pás-carregadeiras da Case IH e de outras empresas. No momento, permanecem em avaliação por pelo menos duas safras antes de decisão comercial ampla.
A FPT informou ampliação do plano de investimentos na América Latina de R$ 130 milhões para R$ 250 milhões até 2028, ampliando a atuação no setor.
Em fase de testes
As discussões técnicas giram principalmente em torno da validação operacional das novas tecnologias. A Case IH mostrou uma colheitadeira e um trator movidos a etanol em operação experimental, com cerca de 800 horas de uso no trator.
Resultados iniciais indicam desempenho próximo das metas de potência, torque e consumo, mas a durabilidade ainda precisa ser comprovada. O cronograma atual foca na continuidade dos testes na safra seguinte.
A adoção depende também do perfil de uso e da disponibilidade de matéria-prima para os combustíveis. Em alguns casos, a integração energética dentro da própria operação é o aspecto econômico central.
Biometano
O biometano aparece como solução mais próxima em alguns casos. A Valtra já acumula mais de 20 mil horas de operação com máquinas movidas a biometano em testes de campo.
Marcelo Traldi, vice-presidente da Valtra e Fendt para a América Latina, aponta lançamento comercial para 2027. Traldi também cita mais de 10 mil horas de teste com tratores a etanol no ciclo 2028/29.
A AGCO, grupo que controla Valtra, Massey Ferguson e Fendt, adota estratégia diversificada. Enquanto a Valtra avança com etanol e biometano, a Massey Ferguson testa etanol em tratores de 200 a 300 cavalos e também metano.
A Fendt sinaliza presença de soluções já no mercado europeu, como tratores elétricos, mas alerta que a expansão para o Brasil depende de infraestrutura energética adequada, especialmente para recarga em áreas remotas.
Hidrogênio
A JCB aposta em motores a combustão movidos a hidrogênio, em vez de eletrificação completa por baterias, para máquinas pesadas. Adriano Merigli, presidente da empresa, cita peso das baterias e operação contínua como entraves para eletrificação total.
A fabricante já comercializa equipamentos a hidrogênio na Europa, mas reconhece entraves de abastecimento até mesmo em mercados avançados. No Brasil, há estudos com universidades e parceiros para avaliar a viabilidade da tecnologia.
Com múltiplas rotas em andamento, o setor avança em paralelo, sem apontar uma tecnologia dominante para substituir o diesel de imediato. A estratégia das fabricantes aponta para uma construção gradual, respeitando as condições brasileiras e a infraestrutura disponível.
Entre na conversa da comunidade