- O ator Mel Gibson defendeu o uso da ivermectina para pacientes com câncer no podcast de Joe Rogan, o que levou a um aumento nas prescrições nos EUA—cerca de 2,5 vezes.
- A pesquisa, publicada na revista JAMA Network Open, analisou prontuários de 68.373.949 pacientes em 67 sistemas de saúde, buscando padrões de prescrição de ivermectina e benzimidazol.
- Não há ensaios clínicos que comprovem segurança ou eficácia desses medicamentos no tratamento do câncer em seres humanos.
- O estudo aponta que o efeito da influência de Gibson atingiu principalmente pacientes brancos, homens e moradores do sul dos Estados Unidos.
- Especialistas ressaltam que opiniões de figuras públicas podem gerar prescrições desnecessárias e destacam a importância de decisões médicas baseadas em evidência científica.
Um estudo publicado na JAMA Network Open nesta terça-feira analisa o impacto da influência de figuras públicas em decisões de saúde, a partir de um episódio do podcast de Joe Rogan em que Mel Gibson defendeu o uso de antiparasitários como ivermectina para pacientes com câncer. A reportagem aponta que as prescrições desse medicamento subiram cerca de 2,5 vezes nos EUA após o episódio.
Os pesquisadores analisaram registros médicos eletrônicos de quase 68,4 milhões de pacientes em 67 sistemas de saúde, buscando taxas de prescrição de ivermectina e benzimidazol. Não houve ensaios clínicos que comprovassem segurança ou eficácia de tais fármacos no tratamento do câncer em humanos.
Publicado em janeiro de 2025, o episódio em questão tem milhões de visualizações. Gibson afirmou que amigos dele se recuperaram do câncer ao usar uma combinação de ivermectina e benzimidazol, informação que influenciou mudanças de tratamento entre pacientes brancos, homens e residentes do sul dos Estados Unidos, segundo o estudo.
Especialistas destacam que o alcance de opiniões infundadas pode gerar prescrições desnecessárias. Em comunicado, Michelle Rockwell, da Universidade Estadual da Virgínia, disse que pacientes passaram a pedir medicamentos aos médicos com maior insistência, destacando o papel relevante de influenciadores famosos nesse cenário.
A discussão também ressalta o perfil público das informações de saúde. A desinformação espalhada por celebridades pode impactar a confiança no sistema de saúde, enfrentar barreiras de acesso e, em alguns casos, trazer riscos globais para a saúde pública. O estudo não analisa apenas efeitos negativos, mas aponta que influenciadores também podem favorecer escolhas médicas benéficas quando fornecem orientações baseadas em evidências.
O tema é relevante tanto nos Estados Unidos quanto no Brasil, onde casos anteriores mostraram como comentários de figuras públicas influenciam decisões médicas. A ivermectina é citada como exemplo de medicamento que não mostrou benefício comprovado na redução de gravidade ou hospitalizações em estudos clínicos.
Quanto aos fatos, o aumento de prescrições ocorreu após a exposição de Gibson, mas não é possível afirmar com exatidão a participação de outros fatores na demanda por medicamentos. A pesquisa ressalta que o efeito de influenciadores é apenas um dos componentes da dinâmica entre saúde pública, acesso a tratamentos e comportamentos dos pacientes.
Pesquisadores apontam que, em termos de políticas de saúde, é fundamental comunicar evidências de forma clara e transparente. A intenção é reduzir decisões médicas inadequadas e orientar pacientes a buscar orientação médica baseada em dados científicos. A análise destaca ainda que influenciadores podem, sim, contribuir para impactos positivos quando alinham-se a informações verificadas.
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