- Abelhas nativas do Brasil são responsáveis pela polinização de cerca de 70% das espécies vegetais que dependem de insetos para se reproduzirem.
- Segundo especialistas, a polinização é o ativo mais importante das abelhas, essencial para biodiversidade e segurança alimentar global.
- O país possui mais de 300 espécies de abelhas nativas, muitas sem ferrão, com meles de características e perfis aromáticos diversos.
- Os meles brasileiros são vistos como terroir, conectados ao ambiente e às espécies de abelhas, com sabores que impressionam chefs internacionais.
- Riscos como desmatamento, mudanças climáticas e uso de agrotóxicos ameaçam as abelhas; a meliponicultura depende da floresta preservada.
No Brasil, as abelhas nativas polinizam cerca de 70% das espécies vegetais que dependem de insetos para se reproduzirem, fortalecendo a base da alimentação. O tema foi discutido em painel durante o São Paulo Innovation Week, promovido pelo Estadão em parceria com a Base Eventos.
Os especialistas destacam que o valor das abelhas vai além do mel. A polinização é apresentada como o principal legado das abelhas, vital para biodiversidade, culturas agrícolas e segurança alimentar mundial. Sem esse serviço, muitos alimentos estariam em risco.
Marcia Basile, sócia da MBee, explica que há um vasto universo de meles produzidos por abelhas nativas, com características diversas. Ela compara o mel a bebidas fermentadas e reforça que não há apenas um tipo de mel no Brasil.
Muito além da abelha amarela
A diversidade brasileira vai além da imagem clássica da abelha preta e amarela. O país abriga mais de 300 espécies nativas, muitas sem ferrão, cada uma com comportamentos e meles próprios, ampliando o leque de sabores.
Segundo os especialistas, o Brasil produz meles com acidez elevada, notas fermentadas e perfis aromáticos complexos, aproximando o ingrediente de universos como vinho, café e fermentação de pães. A ideia é enxergar o mel como biodiversidade.
O interesse de chefs nacionais e internacionais confirma a riqueza: muitos profissionais se surpreendem ao provar meles de abelhas nativas e questionam se aquilo realmente é mel pela variedade sentida.
O mel como terroir brasileiro
Para produtores, o mel brasileiro deve ser entendido como terroir, ligado ao ambiente e às espécies de abelhas que o produzem. Em regiões secas, abelhas nativas buscam néctar em plantas resistentes, como o mandacaru, apontando a adaptação local.
Casos de mel avermelhado já foram produzidos pela raspagem de mandacaru, segundo as lideranças da MBee. Definir o mel apenas pela florada seria uma visão limitada de um ecossistema mais rico.
Os conhecimentos sobre meles nativos são ancestrais: povos indígenas já utilizavam esses meles em rituais, medicinas tradicionais e cerimônias muito antes da chegada de Apis ao Brasil.
Consumir mel também é preservar
Apesar da riqueza, o consumo de mel no Brasil é menor do que o de outros mercados, como o americano. Para Marcia, parte desse ajuste cultural passa pela desmistificação do mel como remédio, incorporando-o mais à alimentação diária.
A produção de meliponia depende de florestas preservadas, conectando ambiente, economia e trabalho humano. O consumo de mel incentiva a preservação das abelhas e o serviço de polinização, segundo os produtores.
Um tripé de sustentabilidade
O setor envolve três pilares: ambiental, ao preservar ecossistemas e espécies; econômico, gerando renda para produtores rurais; e social, promovendo empregos estáveis no campo. As comunidades locais atuam diretamente nos projetos ligados ao mel.
Marcia afirma que quem produz o mel são as abelhas, mas são as pessoas que sustentam toda a cadeia, desde a defesa ambiental até a geração de renda em comunidades rurais.
O risco das abelhas invisíveis
Apesar de as Apis não apresentarem risco de extinção, várias abelhas nativas enfrentam pressões como desmatamento, mudanças climáticas e uso de agrotóxicos. Os produtores defendem a proteção dessas espécies como estratégia para a alimentação futura.
A substituição por mel de laboratório é criticada, por reduzir benefícios ambientais e a renda de quem vive da conservação. Para os produtores, a floresta é parte essencial do ciclo de produção do mel.
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