- Painel no São Paulo Innovation Week destacou que a eletrificação sozinha não resolve a descarbonização; aviação de longo alcance, transporte marítimo e indústria pesada demandam combustíveis avançados.
- Combustíveis avançados — e-fuels, biofuels e CO₂ biogênico — devem complementar a eletrificação, mantendo densidade energética, escala e segurança de abastecimento.
- Brasil tem papel de destaque, com matriz energética cerca de cinquenta por cento renovável e matriz elétrica em torno de oitenta e oito por cento, o que facilita liderar a produção de combustíveis de baixo carbono.
- Soluções para curto prazo incluem eletrificação de frota leve e voos de curta distância; biometano no transporte pesado; e SAF e alcohol-to-jet para aviação; e-fuels no longo prazo.
- Desafios envolvem custos, infraestrutura, captação de capital e necessidade de análise de ciclo de vida; segurança energética e integração com tecnologias existentes são pontos-chave.
A eletrificação é parte fundamental da transição energética, mas não basta para descarbonizar todos os modais. Aviação de longa distância, transporte marítimo e parte da indústria pesada dependem de alternativas com densidade energética, escala e segurança de abastecimento.
Especialistas defendem o uso de combustíveis avançados como complemento à eletrificação. No painel Combustíveis Avançados, participaram Mauro Andrade, diretor de desenvolvimento da Prumo e board member da GNA Açu; Raphaella Gomes, CEO da New Gaia Strategies; e Alessandro Gardemann, diretor da Geo Bio Gas & Carbon. O debate ocorreu na sexta-feira, 15, durante o São Paulo Innovation Week.
O evento é o maior festival global de tecnologia e inovação, organizado pelo Estadão em parceria com a Base Eventos, realizado no Pacaembu e na FAAP. Mais de 2 mil palestrantes discutiram ciência, mobilidade, energia, geopolítica e sustentabilidade.
Nem tudo pode ser eletrificado
Para Mauro Andrade, a eletrificação tem papel central, mas há limites técnicos e econômicos em aplicações de alta densidade energética. “A eletrificação não serve para tudo. algumas indústrias, navios de grande porte e aviões de longa distância não conseguem ser eletrificados”, afirmou. Ele destacou que a origem da energia elétrica também impacta a pegada ambiental.
Os combustíveis avançados ganham relevância para complementar a eletrificação. Segundo Andrade, e-fuels, biofuels e CO2 biogênico são úteis em setores onde baterias não resolvem a equação, mantendo densidade energética e continuidade de abastecimento.
Como funcionam os combustíveis avançados
O painel explicou que os e-fuels combinam hidrogênio verde com CO₂ capturado para gerar moléculas sintéticas semelhantes aos combustíveis fósseis. O e-metanol e etanol renovável aparecem como rotas para setores de difícil eletrificação, com o combustível de aviação sustentável ganhando espaço na agenda.
Brasil pode liderar a produção de baixo carbono, segundo os especialistas. Andrade ressaltou que o país tem matriz elétrica 88% renovável e 50% de energia renovável na matriz total, além de forte produção de biomassa. “Essa combinação coloca o Brasil em posição de destaque”, disse.
Raphaella Gomes acrescentou que a transição energética não é apenas troca de base tecnológica, mas transformação estrutural. Ela lembrou que regulações estão surgindo em todo o mundo para acelerar a mudança e citou pressões geopolíticas como fator de urgência.
Avanços e custos
A CEO da New Gaia Strategies apontou custos invisíveis da dependência energética, destacando que o Brasil importa diesel, LNG e fertilizantes, o que impacta o consumidor final e os contribuintes. Mesmo assim, o Brasil tem potencial para reduzir essas importações com soluções locais.
Raphaella também destacou o papel de biogás e biometano como tecnologias maduras, com indústria nacional capaz de produzir milhões de metros cúbicos diários. Ela reforçou que o país precisa investir em infraestrutura para sustentar o protagonismo.
Segurança energética e escolhas tecnológicas
Gardemann, da Geo Bio Gas & Carbon, defendeu tratar a segurança energética em três pilares: abastecimento estável, previsibilidade de preço e descarbonização. Ele disse que a eletrificação é viável para carros leves, mas não para toda a economia, e que escolhas devem partir de análise de ciclo de vida.
O especialista alertou contra apostas isoladas e enfatizou a importância de fontes com escala e custo competitivo. “Sem moléculas não vamos descarbonizar”, afirmou, destacando a necessidade de abordar o tema com base científica.
Perspectivas para setores específicos
No curto prazo, a eletrificação deve avançar para frota leve e voos curtos. No transporte pesado, o biometano já aparece como solução viável, com operações no Brasil. Para aviação de longa distância, o combustível sustentável de aviação e o álcool-to-jet aparecem como caminhos promissores.
No transporte marítimo, apostas incluem e-metanol, gás natural de liquefação (GNL) e biogás, com o biometano aproveitando a infraestrutura existente. Gardemann ressaltou que a compatibilidade do biogás com a infraestrutura atual facilita a transição rumo a combustíveis de baixo carbono.
Desafios do Brasil e agenda pública
Apesar do potencial, há gargalos como captação de financiamento e escala de projetos. Gardemann afirmou que a agenda brasileira não pode ser tratada como periférica, pois o país pode contribuir de forma relevante para a transição global.
Para Raphaella, a integração de energia com agricultura é uma vantagem competitiva única do Brasil, que precisa seguir aprimorando infraestrutura e políticas públicas para demonstrar viabilidade global. Ela reforçou a importância de manter o Brasil na vanguarda da transição energética.
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