- Estudo publicado na Nature analisou 197 países, com 4.050 estudos de base populacional, nos últimos 40 anos, destacando que a obesidade tem forte faceta socioeconômica e não deve ser tratada como epidemia global.
- Países de alta renda estabilizaram a obesidade; no Sul Global houve avanço maior em 2024 do que em qualquer ano desde 1980.
- O Brasil aparece como exemplo de pico elevado da doença sem sinal de estabilização, com aceleração entre homens adultos e necessidade de investigar impactos de gênero.
- Países em desenvolvimento não acompanharam a redução da desnutrição com regulamentação adequada ao consumo de ultraprocessados, o que acarreta maior risco de infarto e câncer.
- Levantamento do Instituto Desiderata aponta custos diretos da obesidade infanto-juvenil de até R$ 3,8 bilhões ao SUS até 2060; políticas eficazes podem reduzir 10% da obesidade infantil, gerando economia acima de R$ 1 bilhão e cerca de 70,8 mil vidas salvas, com destaque para investir em alimentação infantil saudável em escolas em tempo integral.
O estudo divulgado na revista Nature aponta que a obesidade deve ser encarada com foco nas suas relações socioeconômicas, e não apenas como epidemia global. Pesquisadores de uma rede internacional analisaram dados de 197 países ao longo de 40 anos, reunindo 4.050 estudos populacionais urbanos e rurais para entender as dinâmicas da doença.
Os resultados indicam que a obesidade está crescendo com intensidade maior em regiões marcadas por falhas de urbanização, dificuldade de acesso a alimentos saudáveis, sedentarismo, desigualdade social e outros fatores estruturais. O peso da obesidade, portanto, é, em grande parte, social, não apenas individual. A pesquisadora Alicia Matijasevich, da USP, ressalta que rotular o fenômeno como epidemia global pode ocultar diferenças relevantes entre países e grupos populacionais.
Brasil em foco
No Brasil, o relatório aponta que a obesidade atingiu patamares elevados e não apresenta sinal de estabilização. A tendência é de aceleração entre homens adultos e entre pessoas de diversas faixas etárias, com necessidade de aprofundar pesquisas sobre a influência de gênero. Pesquisadores destacam que o avanço ocorre mesmo com estabilização observada em países de alta renda, como a França, onde o índice entre crianças permaneceu estável.
Desafios para países em desenvolvimento
Entre as principais preocupações, está a relação entre desnutrição histórica e aumento do consumo de ultraprocessados. A falta de resposta regulatória a produtos pouco saudáveis evidencia uma transição alimentar que pode elevar custos e demanda por serviços de alta complexidade, como tratamento de infartos e cânceres. A partir disso, o estudo alerta para impactos sistêmicos possíveis em sistemas de saúde.
Impactos econômicos e custo para o SUS
Dados de levantamento do Instituto Desiderata indicam que apenas a obesidade infanto-juvenil pode gerar custos diretos de até 3,8 bilhões de reais ao SUS até 2060, com 95% das despesas concentradas em internações. A implementação de políticas públicas eficazes poderia reduzir a obesidade infantil em pelo menos 10%, gerando economia superior a 1 bilhão de reais e salvando mais de 70 mil vidas, entre outros benefícios.
Medidas estruturais sugeridas
Especialistas destacam medidas voltadas aos jovens, como a alimentação infantil saudável em tempo integral nas escolas. No Brasil, apenas cerca de uma em quatro crianças tem acesso à jornada escolar com tempo integral, o que evidencia fragilidades na oferta de cardápios equilibrados. As recomendações indicam que ações consistentes do governo são necessárias para ampliar o alcance de decisões ligadas à saúde pública.
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