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Covid-19: entre a epidemiologia e a política do espetáculo

OMS revisa mortes por covid-19 e revela subnotificação global; Brasil possuía vigilância sólida, enquanto a narrativa política superou dados

OMS admite agora que havia profunda heterogeneidade internacional na qualidade dos sistemas de informação e o resultado foi uma gigantesca subnotificação global, diz o articulista; na imagem, equipe médica faz atendimento de paciente de covid-19 no HRAN, em Brasília
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  • A OMS revisou os números da pandemia e estima 22,1 milhões de mortes em excesso entre 2020 e 2023, bem acima das 7 milhões oficialmente registradas.
  • A diferença mostra que dados em tempo real não capturaram o impacto real da covid-19 globalmente, principalmente por subnotificação e variações na qualidade dos sistemas de informação.
  • A organização aponta muita heterogeneidade entre países: alguns tinham registros confiáveis, outros não tinham mecanismos adequados para certificar mortes.
  • No Brasil, havia sistemas estruturados de vigilância e registro de mortalidade, com avanços entre 2021 e 2022 na RNDS, no Conecte SUS, na rastreabilidade vacinal, na telemedicina e na interoperabilidade entre sistemas.
  • A OMS afirma que só em 2026 foi possível entender de forma mais robusta o alcance temporal e epidemiológico da pandemia, servindo como lição sobre a necessidade de prudência metodológica e cuidado com narrativas políticas.

Seis anos após o início da pandemia, a Organização Mundial da Saúde (OMS) revisou a estimativa de mortes por covid-19 e apontou que o impacto real foi substancialmente maior do que o registrado nos números oficiais de mortalidade. O relatório indica 22,1 milhões de mortes em excesso entre 2020 e 2023, mais de três vezes as 7 milhões oficialmente registradas no período.

Essa conclusão evidencia a heterogeneidade dos sistemas de informação em saúde ao redor do mundo. Segundo a OMS, muitos países apresentavam baixa capacidade de diagnóstico, registro e certificação de óbitos, o que gerou subnotificação generalizada. Em alguns lugares, não havia mecanismos robustos para confirmar causas de morte, prejudicando a coleta de dados em tempo real.

No Brasil, a narrativa predominante de falhas abriu espaço para críticas, mas o relatório reforça uma leitura diferente. O país possui sistemas de vigilância e de registro já estruturados, como SIM, Sivep-Gripe, e-SUS e registros civis integrados. Entre 2021 e 2022, houve avanços na Rede Nacional de Dados em Saúde (RNDS), no Conecte SUS, na rastreabilidade vacinal, na telemedicina e na interoperabilidade entre sistemas.

O estudo aponta ainda que a exigência de divulgação diária de números consolidados, em meio à emergência sanitária, alimentou um ambiente de pressa e disputa de narrativas. Quaisquer atrasos ou revisões metodológicas foram interpretados como falhas graves, alimentando acusações políticas. Em 2026, a OMS concluiu que foi possível entender com mais robustez o alcance temporal e epidemiológico da pandemia.

A revisão retrospectiva, segundo especialistas, reforça a importância da prudência metodológica. A pandemia foi marcada por incertezas científicas e pela grande disparidade entre países, não apenas por falhas técnicas. O relatório cita a necessidade de reconhecer limites dos dados em tempo real sem perder o foco na qualidade da informação.

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