- Agonistas de GLP‑1, usados no tratamento da obesidade e do diabetes, podem reduzir o consumo de álcool em algumas pessoas.
- A semaglutida, aplicada semanalmente em dose de 2,4 mg, revelou queda significativa no consumo de álcool em um ensaio publicado pela Lancet em 2026.
- Um segundo estudo, divulgado pela JAMA Psychiatry em 2025 com mais de 227 mil pessoas na Suécia, associou semaglutida a menor risco de hospitalizações relacionadas ao alcoolismo.
- Pesquisas sugerem que esses medicamentos atuam em circuitos cerebrais de fome, recompensa e compulsão, possivelmente reduzindo a sensação de prazer ligada ao álcool.
- Especialistas alertam que não há solução mágica: fatores emocionais, sociais e psicológicos também influenciam obesidade e comportamentos compulsivos, exigindo acompanhamento de longo prazo.
O uso de medicamentos para obesidade, como semaglutida e tirzepatida, pode afetar não apenas o peso, mas também a relação com o álcool. Estudos recentes sugerem que esses fármacos modulam circuitos cerebrais de compulsão e recompensa, reduzindo o consumo de bebidas em alguns pacientes.
Pesquisadores destacam que os agonistas de GLP-1 atuam em áreas do cérebro ligadas ao apetite, à fome hedônica e à busca de recompensa. Médica endocrinologista Patrícia Baines Gracitelli observa resultados promissores em ensaios clínicos.
Um estudo randomizado publicado em 2026 na Lancet indicou que a semaglutida 2,4 mg semanal reduziu significativamente o consumo de álcool em pacientes com transtorno por uso de álcool e obesidade. Resultados ainda estão em avaliação.
Outro levantamento, publicado em 2025 na JAMA Psychiatry, analisou mais de 227 mil casos na Suécia e associou o uso de semaglutida a menor risco de hospitalizações por alcoolismo, com desfechos superiores a alguns fármacos específicos para o problema.
Segundo Gracitelli, os GLP-1 atuam em circuitos que regulam apetite e prazer. A redução da dopamina em regiões associadas à recompensa pode disminuir a vontade de beber ou o interesse pela bebida, sem caracterizar uma dependência equivalente à química.
A pesquisadora ressalva que obesidade e compulsões são condições multifatoriais. Fatores emocionais, sociais e psicológicos precisam de cuidado, para evitar depender exclusivamente de medicamentos ou fabricar expectativas irreais.
Experimentos indicam que o conceito de food noise, o ruído constante da fome, pode diminuir com esses tratamentos. A ideia é reduzir a fome hedônica, aquela vontade de consumir algo prazeroso, além da fome fisiológica.
Ainda não há solução única. Especialistas enfatizam a necessidade de acompanhamento de longo prazo e de estratégias integradas de tratamento, que vão além da intervenção farmacológica.
As descobertas ajudam a entender o papel do cérebro, hormônios e ambiente na relação entre obesidade e comportamentos compulsivos. A comunicação sobre esses temas deve evitar simplificações e manter o foco em evidências.
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