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Quem paga a conta ambiental da inteligência artificial? Desigualdade em debate

Relatório da ONU aponta que centros de dados para IA elevam consumo de energia, água e território, ampliando desigualdades e custos ambientais ocultos

Inteligência artificial: imagem ilustrativa mostra mãos robóticas envolvendo o mundo.
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  • Estudo da ONU aponta que centros de dados para IA devem consumir cerca de 945 TWh de eletricidade por ano até 2030, quase o triplo do consumo combinado de Paquistão, Bangladesh e Nigéria.
  • A pegada hídrica desses data centers pode chegar a 9,3 trilhões de litros anuais, equivalente às necessidades domésticas básicas de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsariana.
  • A área necessária para sustentar a infraestrutura pode ultrapassar 14,5 mil quilômetros quadrados, quase o dobro da região metropolitana de Jacarta.
  • Entre 80% e 90% da energia da IA é gasta na fase de uso, com o ChatGPT estimado em cerca de 2,5 bilhões de comandos por dia, gerando ~383 gigawatts-hora por ano; eficiência pode ampliar o consumo total devido ao Paradoxo de Jevons.
  • Há desigualdade de impactos: Irlanda registra 21% da eletricidade nacional consumida por data centers em 2023; no Brasil há debate sobre soberania digital e custos ambientais; projeção aponta até 2,5 milhões de toneladas de lixo eletrônico por ano até o fim da década.

O relatório produzido por pesquisadores ligados à ONU alerta que a expansão dos data centers para sustentar a IA pode exigir mais eletricidade, água e espaço, elevando a pressão sobre recursos naturais. A conclusão aponta que, até 2030, o consumo anual de energia dos centros de dados deve chegar a 945 TWh. O número supera em quase três vezes o consumo agregado de Paquistão, Bangladesh e Nigéria.

A pegada hídrica associada a essa infraestrutura pode atingir 9,3 trilhões de litros por ano, suficiente para suprir as necessidades de água de cerca de 1,3 bilhão de pessoas na África Subsaariana. A área ocupada para sustentar o ecossistema de IA pode ultrapassar 14,5 mil km², aproximadamente o tamanho da região metropolitana de Jacarta.

Nova fronteira da sustentabilidade?

O estudo, do Instituto da Universidade das Nações Unidas para Água, Meio Ambiente e Saúde, questiona a ênfase exclusiva em emissões de carbono. Em vez disso, aponta que a água e o espaço físico são custos ambientais relevantes, que podem não aparecer nas métricas tradicionais de sustentabilidade.

Segundo os pesquisadores, entre 80% e 90% da energia consumida pela IA ocorre na fase de uso diário, conhecida como inferência, quando modelos respondem a bilhões de solicitações. O sistema ChatGPT, por exemplo, processa estimativas de 2,5 bilhões de comandos diários, o que implicaria ~383 GWh/ano.

Cada kWh usado envolve consumo de água para resfriamento e demanda espaço na cadeia de suprimentos, construção e operação. A pesquisadora principal do relatório ressalta que avaliar apenas pelo carbono pode subestimar o custo ambiental da IA.

> Este relatório não é um ataque à IA, afirma o diretor do instituto. O objetivo é promover uso responsável e enfrentar impactos não intencionais de forma preventiva.

Custos distribuídos de maneira desigual

O estudo evidencia desigualdade na distribuição dos impactos. Na Irlanda, centros de dados representaram 21% da eletricidade total consumida em 2023, levando a suspensão de novas autorizações para a região de Dublin até 2028. No México, a expansão em Querétaro aumenta a pressão sobre reservas hídricas locais, já afetadas por secas.

No Uruguai, projetos de alto consumo hídrico avançaram durante a crise de 2023, quando reservatórios de Montevidéu chegaram a níveis críticos e a água da torneira foi considerada inadequada para consumo. O coautor Mir Matin lembra que muitas comunidades convivem com os impactos sem ver os benefícios da IA.

Brasil na curva da IA

No Brasil, o governo valoriza a infraestrutura como motor de soberania digital, mas críticos apontam riscos de se repetir padrões de exploração de recursos. Análises indicam que centros de processamento podem exigir grande energia e água, com valor agregado reduzido localmente, transformando o país em exportador indireto de energia renovável em dados processados.

O relatório também estima que, mundialmente, apenas 32 países possuem centros de dados voltados para IA, com a maioria da capacidade concentrada em poucas nações. Em paralelo, muitos impactos ambientais permanecem concentrados no Sul Global, onde há extração de minerais estratégicos e tratamento de resíduos eletrônicos.

Desafios e caminhos

Os pesquisadores destacam um possível aumento de lixo eletrônico ligado à IA, estimando até 2,5 milhões de toneladas por ano até o fim da década. O desafio é viabilizar a expansão da IA dentro de limites ambientais planetários e de forma mais justa, garantindo benefícios amplos.

O reitor da Universidade das Nações Unidas afirma que a IA pode promover prosperidade, desde que a governança acompanhe a evolução tecnológica e reduza desigualdades. O objetivo é alcançar impactos positivos com responsabilidade ambiental e social.

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