- Estudo mostra que a neblina funciona como habitat temporário para bactérias vivas em gotículas de água no ar, que crescem e ajudam a remover poluentes.
- Em 32 episódios de neblina de radiação na Pensilvânia, as gotículas apresentaram altas concentrações bacterianas, equivalentes às encontradas em ambientes aquáticos naturais, com quase um milhão de cópias do gene 16S rRNA por mililitro.
- A comunidade microbiana é distinta da do ar seco, com destaque para o gênero Methylobacterium sp., que representou em média 29% das sequências identificadas.
- As bactérias degradam formaldeído em taxas muito altas, em parte convertendo o composto tóxico em dióxido de carbono para manter níveis baixos.
- Os pesquisadores sugerem que os microrganismos ativos na neblina podem influenciar a química da atmosfera e modelos climáticos, e destacam a necessidade de tratar a água coletada da neblina como recurso que pode conter patógenos oportunistas.
Um estudo recente, com pesquisadores da Universidade Estadual do Arizona, indica que a neblina pode ser mais que um fenômeno atmosférico: ela abriga microrganismos vivos que degradam poluentes no ar. Os resultados são de um pré-print publicado em 11 de maio na plataforma mBio.
Ao longo de dois anos de pesquisa, os cientistas acompanharam 32 episódios de neblina de radiação na região central da Pensilvânia. Diferentemente de nuvens comuns, esse tipo de neblina fica em massas de ar relativamente estagnadas, facilitando o monitoramento das transformações microbiológicas.
A análise revelou altas densidades de bactérias nas gotículas, com concentrações próximas de um milhão de cópias do gene 16S rRNA por mililitro de água de neblina. A equipe destacou a similaridade dessas quantidades com ambientes aquáticos naturais, como lagos eutróficos e áreas marinhas.
Bactérias ativas na neblina
Entre as comunidades microbianas identificadas, o gênero Methylobacterium sp. representou cerca de 29% das sequências genéticas. Esses microrganismos mostram habilidade de metabolizar compostos C1, incluindo o formaldeído, um poluente atmosférico ligado à formação de smog e riscos à saúde.
Os experimentos indicaram que as bactérias presentes não apenas sobrevivem, mas crescem dentro das gotículas. Evidências incluem aumento de tamanho celular, maior frequência de divisão e incremento médio de 45% na quantidade de bactérias no ar após episódios de neblina.
Degradação do formaldeído e mecanismos
As bactérias da neblina degradam o formaldeído em velocidades superiores às observadas em estudos com água de nuvens, chegando a cerca de 200 vezes mais rápidas em alguns casos. A degradação ocorre por meio de caminhos que geram dióxido de carbono, mantendo baixos os níveis da molécula tóxica.
Testes com cepas isoladas diretamente da neblina mostraram genes especializados na assimilação e na degradação do formaldeído, fortalecendo a hipótese de atividade metabólica contínua dentro das gotículas.
Implicações para ar, clima e água
Os autores discutem que, ao atuar como centros de degradação de poluentes, as bactérias presentes na neblina podem influenciar a química atmosférica, especialmente em fenômenos noturnos, quando menos processos fotoquímicos ocorrem. Modelos climáticos podem precisar considerar essa atividade microbiana como parte do ciclo de poluentes.
Além disso, o estudo aponta cautela na coleta de neblina para uso como água potável. Embora em algumas regiões a prática seja comum, as gotículas contêm populações bacterianas que requerem tratamento adequado. Os pesquisadores ressaltam a importância de avaliar impactos ambientais de remover grandes volumes de neblina da atmosfera.
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