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Pondé questiona se a IA pode tornar os humanos mais felizes

Pondé afirma que IA pode aumentar produtividade e gerar riqueza, mas não promete bem-estar; ganhos de tempo podem beneficiar apenas as empresas, com risco de empregos

Filósofo e escritor Luiz Felipe Pondé, encerra o AI Summit EXAME com palestra que discute o desejo, controle, medo e limites da ação técnica (Eduardo Frazão/Divulgação)
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  • Pondé encerrou o AI Summit EXAME, em São Paulo, no dia 2 de junho, discutindo se a IA torna as pessoas mais felizes e os limites da ação técnica.
  • A IA pode resolver problemas práticos, aumentar a produtividade e gerar riqueza, mas não oferece, sozinha, uma resposta para o bem-estar humano.
  • O filósofo compara o debate a visões apocalípticas e integradas: não compartilha pânico sobre IA, nem aposta de que a tecnologia libertará completamente o ser humano.
  • Sobre felicidade, faz uma síntese de tradições antigas: estoicismo (controle do que se pode), epicurismo (medir o desejo) e referências cristãs e freudianas, indicando que a felicidade depende de virtudes e de limites, não de soluções técnicas.
  • A IA, para Pondé, é ferramenta que pode gerar valor econômico e melhorar setores como saúde e dados; se não entregar riqueza, pode virar apenas brinquedo, sem necessariamente ampliar o tempo livre.

A inteligência artificial pode melhorar a produtividade e gerar riqueza, mas não oferece sozinha uma resposta para o bem-estar humano. A afirmação foi apresentada pelo filósofo Luiz Felipe Pondé na palestra de encerramento do AI Summit EXAME, em São Paulo, em 2 de junho.

O evento, promovido pela EXAME em parceria com a Saint Paul, reuniu especialistas para discutir IA aplicada aos negócios por mais de oito horas, conectando tecnologia, estratégia e gestão para embasar decisões que gerem valor.

Pondé conectou a discussão a uma tradição filosófica de cerca de 2.500 anos, usando a tragédia Prometeu Acorrentado para ilustrar a ambivalência da técnica: benefícios e riscos da IA convivem no mesmo instrumento.

Ele evitaram o entusiasmo exagerado e o medo apocalíptico, dizendo não compartilhar pânico frente à IA. O filósofo afirmou não sentir nenhum impulso apocalíptico relacionado à tecnologia.

Entusiasmo e dúvida

Pondé distinguiu apocalípticos e integrados, conforme Umberto Eco. Os primeiros projetam catástrofes; os segundos, um futuro de facilidades. Entre os apocalípticos, citou Yuval Harari, com ressalvas sobre IA e biotecnologia.

Para o pensador, os integrados supervalorizaram a liberdade proporcionada pela tecnologia. Ele contestou: nem todos sabem o que querem fazer com mais tempo livre, questionando o sentido disso.

A IA, na visão dele, está associada à eficiência e à reprodução do capital. O livro Sociedade do cansaço de Byung-Chul Han serve como referência para sociedades orientadas por desempenho e resultados.

Pondé destacou que o avanço da IA não depende apenas da promessa de felicidade, mas da capacidade de gerar produtividade e riqueza. Caso haja valor econômico, a tecnologia é adotada; caso contrário, vira mero entretenimento.

Essa lógica questiona a ideia de mais tempo livre com IA. Se a máquina reduz o tempo de uma tarefa, o ganho pode beneficiar a empresa e representar perda de empregos para o sistema econômico, social e político.

Controle e medida

Em relação à felicidade, o filósofo retomou a visão de virtudes, moderação e limites da ação humana. A ideia é que a felicidade decorre de um esforço contínuo, não de uma solução técnica pontual.

A reflexão estoica foi apresentada como contraponto ao impulso de controlar tudo. Para os estóicos, muito depende do que não se pode dominar, e o comportamento diante dos eventos pode ser gerenciado.

Pondé conectou esse pensamento à tradição epicurista, que não defende o desejo como servidão, mas a contenção para evitar frustrações. A felicidade, nesse sentido, envolve equilíbrio e medida.

Ele também citou a leitura cristã sobre a felicidade plena após a vida e Freud, que via a felicidade como tema não garantido pela criação. A modernidade deslocou a felicidade para o âmbito emocional, o que pode gerar ansiedade.

A IA pode ampliar essa ansiedade, mas não a cria. Pondé discutiu ainda relações mediadas por IA, apontando que algumas pessoas buscam vínculos com modelos digitais, o que pode funcionar como fuga frente a dificuldades de convivência humana.

Ao encerrar a discussão, o filósofo disse que a IA deve ser vista como ferramenta, capaz de gerar dinheiro, apoiar diagnósticos, controlar dados e oferecer resultados. Contudo, ela pode também causar falhas empresariais ou desemprego.

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