- Estudo recente aponta que áreas com cultivo de açaí na Amazônia registram queda de 28% na diversidade de aves frugívoras, acompanhada pela redução de aves insetívoras.
- Pesquisas em 36 unidades de manejo, em Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri, usaram sondagens acústicas de 45 minutos e resultaram em 127 horas de gravação de quase 3.580 aves.
- A expansão da produção de açaí envolve derrubada de vegetação no sub-bosque, o que desequilibra o ecossistema e compromete dispersores de sementes, polinizadores e habitats.
- Poucas espécies se beneficiam do manejo intensivo, entre elas a great kiskadee; ocorreram também reduções de espécies maiores, que dependem de frutos mais volumosos.
- Solução sugerida: desencorajar monoculturas de açaí e incentivar diversidade, com culturas como cacau e andiroba, para manter biodiversidade e renda local.
O estudo publicado na revista Biological Conservation aponta que o aumento da produção de açaí no Pará está reduzindo a diversidade de aves nas planícies alagadas da Amazônia. O foco foi a expansão das plantações de açaí e seus manejos.
Pesquisadores monitoraram 36 áreas de floresta onde o fruto é cultivado, em Belém, Barcarena, Abaetetuba e Igarapé-Miri. Foram 127 horas de gravação sonora, com cerca de 3.580 aves registradas ao longo de 45 minutos por ponto.
A análise revelou queda de 28% no número de espécies de aves frugívoras, além de diminuição de insetívoras ligadas ao piso florestal. A supressão da vegetação de sub-bosque acelera esse desequilíbrio ecológico.
Em áreas com manejo intensivo, poucas espécies se beneficiam, entre elas o grande cacique-de-fogo (Pitangus sulphuratus). Já espécies especialistas, como o beija-flor-penteado, apresentaram diminuição significativa.
A expansão de palmeiras de açaí também interfere na busca de abrigo, repouso e reprodução de aves. Espécies maiores, como o tucano-de-bico-branco, já não encontram ninhos em cavidades de árvores altas.
Impacto da demanda e manejo do cultivo
Dados oficiais indicam que a produção brasileira de açaí cresceu 14 vezes desde 1987, atingindo 1,9 milhão de toneladas em 2024. Pará é o principal consumidor interno e exportador da fruta.
As exportações de derivados do Pará cresceram 885% em 2025, somando US$ 177,2 milhões. Estados Unidos, Austrália, Japão e Países Baixos são destinos relevantes, com o tráfico para a Europa utilizando a Holanda como porta de entrada.
Nunes frisa que, para atender a demanda, produtores de áreas ribeirinhas intensificam o cultivo. A legislação estadual limita os caroçalhos por hectare, mas a fiscalização muitas vezes não é observada.
Freitas indica que a monocultura de açaí deve ceder espaço para cultivos diversificados, como cacau e andiroba, para promover a biodiversidade e gerar renda na entressafra da fruta.
Perspectivas e propostas
O estudo mostra que a expansão de açaí modifica o ambiente, reduzindo a disponibilidade de recursos para várias espécies. A substituição de plantas nativas por açaí eleva a homogeneização biológica.
Especialistas defendem reforçar a fiscalização ambiental, apoiar produtores com alternativas econômicas e promover práticas que conciliem produção com preservação. A ideia é evitar impactos econômicos e ecológicos no longo prazo.
Em meio à discussão sobre bioeconomia, pesquisadores destacam a importância de estratégias que alavanquem a conservação da floresta, sem abandonar comunidades locais, por meio de apoio técnico e financeiro.
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