- Pesquisa sugere que SARS‑CoV‑2 e outros vírus podem estar ligados à dor crônica nos testículos, mesmo após a infecção.
- Revisão, que analisa sessenta e uma pesquisas, aponta evidências de inflamação no trato reprodutivo masculino que pode afetar fibras nervosas.
- Hipótese principal envolve degeneração Walleriana, um processo de reparo nervoso que pode aumentar a sensibilidade e a dor.
- Entre os vírus considerados estão caxumba, zika, hepatite B, herpes e HIV; zika e SARS‑CoV‑2 aparecem como vias de investigação promissoras.
- Embora ainda não haja comprovação causal, a ideia pode ajudar a explicar parte dos casos de dor escrotal crônica e sugerir acompanhamento de fertilidade e hormônios em pacientes meses ou anos após infecção.
Muito além dos sintomas tradicionais, vírus como SARS-CoV-2, zika, caxumba, herpes e HIV podem estar ligados a dor crônica nos testículos. A hipótese surge de uma revisão publicada em março na revista Basic and Clinical Andrology, conduzida na USP e reunindo evidências de inflamações que afetam o sistema reprodutor masculino.
A revisão analisou 61 estudos sobre dor testicular e infecções virais, buscando confirmar se patógenos causam alterações nervosas que favoreçam a dor crônica. A equipe é liderada pelo grupo de estudos em saúde do homem da universidade paulista.
A dor escrotal crônica envolve desconforto que persiste em testículos, epidídimo ou bolsa testicular, impactando atividades diárias e a vida sexual. Traumas, torção, hérnias e infecções anteriores são causas comuns, mas muitos casos ficam sem diagnóstico definido.
Como os vírus podem agir nos nervos
A hipótese central envolve a degeneração de nervos por reparos inflamatórios após infecção viral, num processo conhecido como degeneração Walleriana. A resposta imune às infecções pode prolongar a inflamação e aumentar a sensibilidade nervosa, contribuindo para a dor.
Alguns vírus são apontados como potenciais gatilhos dessa mecanística. A caxumba é citada pela tradição clínica por causar inflamação testicular; o vírus da hepatite B pode inflamar vasos e estruturas do sistema reprodutor; o herpes pode permanecer dormente e reativar-se no tempo; o HIV já é acompanhado por inflamações testiculares e impactos hormonais.
Estudos indicam que o zika e o SARS-CoV-2 também merecem atenção. A zika pode comprometer a barreira hematotesticular, abrindo passagem para inflamação; o SARS-CoV-2 mostrou, em análises pós-morte de casos graves, sinais de inflamação e lesões no tecido reprodutivo.
Impacto na prática médica e no acompanhamento
Se confirmada, a hipótese pode levar a mudanças nos protocolos diagnósticos. Hoje, a investigação foca mais em causas bacterianas; exames para detectar infecções virais poderiam ser ampliados em casos de dor persistente sem diagnóstico claro.
Especialistas destacam que pacientes com histórico de inflamação testicular viral devem ser acompanhados não apenas pela dor, mas também pela fertilidade e pela produção hormonal. A observação é pertinente diante de evidências sobre efeitos de longo prazo em homens.
A pesquisa sugere também que a realização de autopercepções testiculares e exames direcionados pode facilitar o diagnóstico precoce. Embora ainda não haja comprovação causal, a linha de estudo reforça a necessidade de atenção à saúde reprodutiva masculina.
Perspectivas e limites atuais
Os autores reconhecem lacunas: grande parte das evidências é observacional, sem demonstração direta de causalidade. Ainda assim, a hipótese merece atenção para esclarecer parte de casos de dor crônica sem diagnóstico e orientar novas estratégias terapêuticas.
Se comprovada, a relação entre infecções virais e dor testicular poderia reduzir o uso inadequado de antibióticos e ampliar a investigação para além de causas bacterianas. O objetivo é oferecer respostas mais precisas para um problema que afeta milhares de homens.
Fonte: pesquisadores da USP e colaboradores, com base na revisão publicada em Basic and Clinical Andrology.
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