- A Amazônia sustenta parte da chuva da região, influenciando agricultura, geração de energia hidrelétrica e abastecimento urbano, por meio da evapotranspiração e da reciclagem de água.
- Estudo da Natureza, liderado por Nico Wunderling, mostra que desmatamento aumenta o risco de instabilidade da floresta com aquecimento global; sem desmatamento o limiar é de cerca de 3,7 a 4,0 graus Celsius, e com desmatamento de 22% a 28% o risco aparece em 62% a 77% da floresta.
- A condição da floresta importa tanto quanto sua extensão: florestas menos degradadas retêm mais umidade e resistem melhor a secas em comparação com áreas degradadas.
- O El Niño eleva o risco de incêndios na Amazônia, especialmente em áreas já perturbadas, agravando perdas de umidade e ampliando danos ao ecossistema.
- A agricultura sul-americana depende da umidade amazônica: evaporação das árvores fornece cerca de um terço da chuva da temporada de soja no Brasil; desmatamento reduz precipitação entre 6% e 30%, com perdas de produção de até cerca de 700 mil toneladas.
O estudo publicado na Nature mostra que a Amazônia não atua apenas como depósito de carbono, mas também como geradora de chuva. Pesquisadores analisaram como desmatamento e aquecimento global interagem na bacia amazônica, usando modelagem dinâmica e rastreamento de umidade atmosférica. O resultado aponta que, sem desmatamento, o limiar de aquecimento global que ameaça a estabilidade da floresta fica entre 3,7 e 4,0 °C. Com desmatamento, esse limiar cai.
Quando 22% a 28% da floresta são removidos e o aquecimento varia de 1,5 a 1,9 °C, o estudo indica risco de transição quase sistêmica, afetando de 62% a 77% da Amazônia. Os números, porém, devem ser interpretados com cautela, pois a Amazônia não é uma unidade ecológica única e apresenta variações regionais relevantes.
A pesquisa ressalta que a condição da floresta é tão importante quanto sua extensão. Florestas mais intactas apresentam maior cobertura de dossel, umidade e raízes profundas, reduzindo áreas propensas a incêndios. Em áreas degradadas, a incidência de fogo aumenta e a capacidade de recuperação é menor.
Impactos na chuva e na produção agropecuária
Estudos recentes associam a Amazônia à precipitação em várias regiões da América do Sul. Em termos de produção de soja no Brasil, a evaporação das árvores contribui com cerca de um terço da chuva durante a safra. Desmatamento recente reduziu a precipitação sazonal entre 6% e 30%, dependendo da região.
A diminuição da umidade pode reduzir a oferta de água para lavouras em estados como Mato Grosso, Paraná, Rio Grande do Sul e em países vizinhos. A estimativa de perda de produção acumulada com a queda de chuva chega a centenas de milhares de toneladas, dependendo do estágio de cultivo.
El Niño e fogo: riscos adicionais
Alertas de El Niño, atuais para este ano, indicam condições mais quentes e secas em partes da região. Áreas ao sul e leste da Amazônia costumam ser as mais vulneráveis. A dinâmica de fogo é mais crítica em anos secos, quando áreas já desmatadas ou degradadas têm maior probabilidade de pegar fogo.
Durante períodos de seca, queimadas para manejo de pastagens ou expansão agrícola podem fugir ao controle, atingindo o interior da floresta e abrindo o dossel. A partir daí, o fogo pode se propagar pelo subbosque, agravando danos e prejudicando a armazenagem de carbono.
Implicações para políticas públicas
Especialistas defendem que a proteção da Amazônia deve figurar como prioridade de segurança alimentar e adaptação climática. Conservação de áreas protegidas, territórios indígenas e combate à mineração ilegal devem receber recursos estáveis, fiscalização e monitoramento contínuo. A restauração de áreas degradadas passa a ser parte de estratégias de resiliência.
A relação entre desmatamento, fogo e clima sugere que políticas já existentes precisam de implementação mais efetiva. Enfoque em finanças públicas, cadeias de crédito e padrões internacionais pode favorecer a preservação sem prejudicar a produção agrícola. A meta é manter a Amazônia úmida para sustentar a produção regional.
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