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Internet não é nuvem: tecnologia, território e justiça em foco

Data centers no Brasil ganham impulso, mas com impactos ambientais e participação comunitária deficiente, levantando demandas por regulação e consulta livre

Ilustração de nuvem em um chip de computador — Foto: Getty Images
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  • A “nuvem” da internet não é imaterial: depende de água, terra, energia, minerais, cabos e centros de processamento, com impactos reais em territórios e comunidades.
  • O Ceará, especialmente Fortaleza, é ponto estratégico para cabos submarinos e tem potencial para data centers, tornando o Brasil o principal polo latino-americano nesse setor.
  • O data center de grande escala ligado ao TikTok no Pecém, em Caucaia, tem área equivalente a 12 campos de futebol, investimento de cerca de R$ 50 bilhões e pode consumir até 151 GWh de energia por mês, além de até 144 mil litros de água por dia, impactando o território Anacé.
  • Ministérios Públicos e Defensoria exigiram ajustes no licenciamento ambiental e consulta livre, prévia e informada, apontando falhas na classificação do empreendimento como simples obra civil.
  • O caso evidencia fragilidades regulatórias no Brasil, risco de colonialismo de dados e necessidade de participação social e padrões ambientais, com comparação internacional para evitar concentração territorial e garantir governança.

A ideia de nuvem não é etérea. Dados, energia, água e cabos físicos sustentam a internet. A infraestrutura existe em territórios concretos, com impactos diretos sobre comunidades e ecossistemas.

No Ceará, o pulso da conectividade avança pela localização estratégica. Fortaleza recebe cabos submarinos e abriga data centers em expansão, impulsionados por incentivos e pelo potencial de geração de energia solar e eólica.

Parágrafo inicial de 2-3 parágrafos de texto antes de usar o primeiro subtítulo.

Transformação digital e território

O Brasil assume duas mudanças simultâneas: transição energética e transformação digital, com impactos locais ainda pouco regulamentados. Em termos práticos, o que acontece nos territórios determina quem se beneficia e quem paga o custo ambiental.

O Ceará concentra-se como hub: a cidade de Fortaleza tornou-se polo de chegada de cabos submarinos e atrai investimentos em data centers, alinhados a uma percepção de crescimento econômico regional.

Caso emblemático no Pecém

Um grande data center ligado ao TikTok está em implementação no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, em Caucaia. A área ocupa o equivalente a 12 campos de futebol e envolve investimento estimado em R$ 50 bilhões.

Estimativas de consumo energético indicam até 151 GWh por mês, suficiente para abastecer cerca de 2,2 milhões de pessoas. A água exigida pode chegar a 144 mil litros por dia, em uma região semiárida com acesso hídrico já desafiado.

Desafios de licenciamento e participação

Comunidades indígenas Anacé e organizações da sociedade civil questionam o licenciamento ambiental. Alegam ausência de consulta livre, prévia e informada, previstas na Convenção 169 da OIT e na legislação brasileira.

O Ministério Público Federal e a Defensoria Pública da União emitiram recomendação conjunta para ampliar exigências do licenciamento. Ponto crítico: a obra foi classificada como simples construção civil, dificultando a avaliação de impactos.

Regulação, emprego e justiça ambiental

O caso no Ceará não é isolado. Analistas apontam risco de neoextrativismo, com território, energia e água explorados para gerar valor tecnológico. A regulação no Brasil segue aquém do ritmo de investimentos, e há pressão por incentivos fiscais sem transparência suficiente.

A comparação internacional evidencia o desafio: na Europa, a infraestrutura digital é distribuída entre pólos com regras ambientais consolidadas, enquanto o Brasil tende a concentrar operações com controles frágeis.

Perspectivas e chamada à participação

A discussão se estende ao papel das populações locais na governança de dados e infraestrutura. Pesquisadores e organizações dedicam-se a articular direitos digitais com justiça socioambiental, defendendo decisões participativas.

A nuvem da internet, portanto, está enraizada em territórios concretos. Construir uma transição digital compatível com justiça climática requer reconhecer essas raízes e incluir comunidades no protagonismo das decisões.

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