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Análise: como a perda de freio afeta a dinâmica de geleiras

Geleira antártica Hektoria recua 8,2 km em dois meses, revelando mecanismo de instabilidade rápida que pode acelerar a elevação do nível do mar

Imagens da geleira Hektoria em 2022 (esquerda) e em 2024 (direita). A linha azul mostra a frente da geleira em cada um desses anos
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  • Geleira Hektoria, na Península Antártica, recuou 8,2 quilômetros em apenas dois meses, induzindo um colapso acelerado.
  • Estudo divulgado na Nature Geoscience mostra um mecanismo físico em gelo apoiado em leito submarino plano, que transforma pequenas perdas de espessura em rápida desestabilização.
  • O freio natural deixava de funcionar quando águas mais quentes afinou a base, reduzindo o contato com o fundo e aumentando o fluxo de gelo.
  • O ciclo de retroalimentação envolveu menos apoio no fundo, maior velocidade, mais fraturas e novos desprendimentos, expondo ainda mais gelo ao oceano.
  • A pesquisa não afirma que geleiras maiores, como Thwaites ou Pine Island, irão colapsar, mas aponta a necessidade de modelos que capturem instabilidades abruptas para projeções do nível do mar.

Na Antártica, a geleira Hektoria recuou 8,2 quilômetros em apenas dois meses, um indicativo de que o aumento do nível do mar pode ocorrer de forma mais rápida do que se previa. Pesquisadores descrevem um mecanismo de desestabilização abrupta ligado ao afinamento da base de gelo sobre o leito submarino.

O estudo, publicado na Nature Geoscience, envolve pesquisadores da University of Colorado Boulder, da University of Florida, da Northumbria University e outras instituições internacionais. A pesquisa levanta a hipótese de que mudanças geológicas e climáticas podem acelerar processos de colapso glaciar.

Na Península Antártica, a geleira Hektoria apresentava apoio parcial sobre um leito rochoso submarino. Esse freio natural reduzia o ritmo do fluxo de gelo em direção ao oceano, mantendo a geleira relativamente estável.

Com o aquecimento, o véu de gelo na base afinou. Parte da geleira perdeu contato com o fundo, diminuindo o atrito e acelerando o escoamento. Grandes fraturas se formaram e blocos enormes se desprenderam, aumentando rapidamente a frente.

Os autores destacam que a presença de uma planície de gelo apoiada em um leito quase plano tornou a geleira particularmente sensível a pequenas perdas de espessura. Quando o limiar é ultrapassado, o ciclo de retroalimentação se intensifica.

Nesse ciclo, menos apoio no fundo gera maior velocidade, o que produz mais fraturas. Novos desprendimentos expõem ainda mais gelo ao oceano, acelerando o recuo da geleira em semanas ou meses.

A relevância do achado está na identificação do mecanismo físico. Ele sugere que geleiras com geometria semelhante podem apresentar respostas rápidas a mudanças no aquecimento oceânico, mesmo que não haja aumento proporcional no tamanho de flutuações observadas.

A pesquisa reforça a necessidade de modelos que representem com fidelidade processos de instabilidade abrupta. A avaliação do risco para o nível do mar passa a considerar a possibilidade de colapsos não lineares em períodos curtos.

Embora a Hektoria seja pequena em comparação aos grandes sistemas da Antártica Ocidental, o estudo demonstra que cenários de freio frágil podem ocorrer sob condições específicas. Não implica inevitabilidade de colapsos semelhantes em Thwaites ou Pine Island.

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