- Caverna do Malfazido, no Paraná, guarda um registro climático que permitiu reconstruir a história de chuvas extremas no Sul do Brasil nos últimos 7.500 anos.
- Entre os achados, a frequência de eventos extremos foi especialmente alta no século XX, segundo as análises das estalagmites preservadas.
- Os pesquisadores associam esses eventos à variabilidade na Antártida Ocidental e à ocorrência de El Niño, que influenciam a circulação atmosférica e a umidade transportada até a região.
- Ao longo de milênios, houve relação significativa entre chuvas extremas e episódios de El Niño, com maior intensidade observada no último milênio.
- Os resultados, publicados na revista Communications Earth & Environment, reforçam previsões de El Niño moderado a forte e destacam a necessidade de estratégias de mitigação e adaptação para comunidades vulneráveis.
Uma caverna no interior do Paraná guarda um arquivo climático que permite reconstruir a história de chuvas extremas na região Sul do Brasil nos últimos 7.500 anos. O estudo mostra alta frequência de eventos no século 20 e aponta Antártida e El Niño como influências relevantes.
Entre as descobertas, há indicação de que verões com temperaturas menores na Antártida Ocidental coincidem com mais chuvas extremas no Sul. A hipótese envolve mudanças no gradiente entre latitudes altas e médias, afetando frentes frias e o transporte de umidade.
Além disso, há relação entre a frequência de eventos extremos e episódios de El Niño ao longo de milênios, destacando o papel do aquecimento das águas do Pacífico Equatorial na circulação atmosférica.
Arquivo natural
Os cientistas estudaram espeleotemas da Caverna do Malfazido, em Doutor Ulysses, região metropolitana de Curitiba. Desde 2019, há monitoramento de inundações na caverna, que abriga um rio subterrâneo e um sistema de represas naturais de calcita.
Durante as enchentes, sedimentos finos são depositados sobre as estalagmites, que crescem rapidamente no local. As camadas microscópicas ficam preservadas no carbonato e registram cada evento de inundação.
As estalagmites foram datadas por métodos isotópicos, identificando 921 camadas de inundação. A validação ocorreu ao comparar com enchentes de 2023, registradas no rio Turvo, onde deságuas da caverna ocorrem.
Desdobramentos científicos
As camadas funcionam como um arquivo: permitem estimar a frequência de eventos extremos ao longo de milênios. Os resultados foram publicados em abril na revista Communications Earth & Environment, do grupo Nature.
O pesquisador principal, Julio Cauhy, destaca que o registro utiliza espeleotemas para oferecer dados com alta resolução temporal, diferente de registros de lagos ou anéis de árvore. Parte da pesquisa foi desenvolvida na Alemanha.
A colaboração envolveu o Instituto Max Planck de Química, a Universidade Johannes Gutenberg Mainz e o Instituto de Geociências da USP, com apoio de pesquisadores brasileiros e estrangeiros.
Perspectivas e impactos
O estudo indica que o aumento da temperatura atmosférica pode intensificar eventos extremos no Sul, reforçando a necessidade de planejamento de adaptação. Autoridades apontam para potenciais impactos nas regiões centro-sul do Brasil.
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