- Estudo publicado na Nature Microbiology reconstituiu o surto de febre amarela silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo entre 2017 e 2018, com mais de noventa mortes.
- O início foi em 9 de outubro de 2017, com a descoberta da carcaça de um macaco no Horto Florestal, levando à morte de cerca de oitenta bugios em seis semanas.
- O número básico de reprodução estimado (R zero) foi de 8,2, indicador de alta capacidade de transmissão da doença.
- O vetor central foi Haemagogus leucocelaenus, que atuou no ciclo silvestre tanto no solo quanto na copa das árvores, acelerando a disseminação.
- Na área, 142 casos notificados e mais de 40 óbitos em Mairiporã, cidade vizinha, mesmo com imunização em andamento; reforço da necessidade de vacinação antecipada e vigilância integrada.
Um estudo internacional reconstituiu o surto de febre amarela silvestre que atingiu a Região Metropolitana de São Paulo entre 2017 e 2018, revelando velocidade de transmissão, impacto ambiental e fatores de risco. A pesquisa foi publicada na revista Nature Microbiology em março.
O trabalho aponta que o surto provocou mais de 90 mortes, marcou o extermínio de bugios no Horto Florestal e gerou uma corrida aos postos de vacinação na região. A investigação destacou a dinâmica explosiva do vírus em um ambiente florestal dentro da cidade.
O primeiro alerta ocorreu em 9 de outubro de 2017, com a descoberta de uma carcaça de macaco no Horto Florestal, zona norte de São Paulo. Em seis semanas, o vírus se disseminou rapidamente entre os primatas do parque.
Portas de entrada
Pesquisas anteriores já indicavam parques estaduais da Cantareira e Alberto Löfgren como possíveis vias de entrada. Contudo, a velocidade da disseminação surpreendeu os cientistas e reforçou a preocupação com o papel das áreas de conservação próximas a áreas urbanas.
Em cidades vizinhas, como Mairiporã, foram notificados 142 casos e mais de 40 óbitos, ainda com vacinação em andamento. A conclusão é de que a circulação do vírus ocorreu com alta intensidade na periferia verde da capital.
Vetores e transmissão
O estudo identificou o mosquito Haemagogus leucocelaenus como vetor central do ciclo silvestre, presente tanto na copa das árvores quanto no solo. A presença desses vetores em diferentes estratos favoreceu a transmissão para humanos e primatas.
Os autores destacam que o risco de uma possível reurbanização da febre amarela existe caso o vírus passe a ser transmitido por Aedes aegypti entre humanos. No entanto, a pesquisa registrou apenas a transmissão entre mosquitos Haemagogus no momento do surto.
Metodologia e dados
Para chegar às conclusões, a equipe combinou monitoramento de mosquitos, análise de carcaças, sequenciamento metagenômico e modelagem matemática. A integração entre órgãos de saúde, meio ambiente e instituições de pesquisa foi essencial para o mapeamento do evento.
Entre as descobertas, os pesquisadores apontam que houve várias introduções virais no parque e que o ciclo de transmissão foi intenso e concentrado em um curto período. A análise também envolveu o Centro Conjunto Brasil‑Reino Unido para Estudos de Arbovírus.
Lições e vigilância
A pesquisa enfatiza a necessidade de vacinação antecipada contra febre amarela, diante de janelas curtas entre o alerta e o pico de transmissão. Além disso, reforça a importância da vigilância integrada entre saúde humana, animal e ambiental.
Os autores sugerem ampliar ações de saúde única, com monitoramento metagenômico e vigilância em bordas de áreas verdes. O estudo também aponta a contaminação por resíduos humanos na borda da mata como fator relevante para a saúde pública.
O artigo Evolution and spillover dynamics of yellow fever at the forest-urban interface in Brazil está disponível para leitura na Nature Microbiology.
Entre na conversa da comunidade