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LSD era usado como propaganda pela Big Pharma, aponta material histórico

Da propaganda clínica à repressão legal: filmes encomendados pela Sandoz exibem a evolução do LSD, de uso médico a objeto de controvérsia pública

Cena de 'Imagens do Mundo Visionário' (1963)
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  • Dois filmes dos anos setenta mostram a mudança do LSD no imaginário: Imagens do Mundo Visionário (1963), encomendado pela Sandoz a Henri Michaux, e Acid (1971), produzido pela Enciclopédia Britânica com participação da mesma empresa.
  • Em 1963, Michaux tenta traduzir em filme os efeitos da mescalina, destacando a dificuldade de representar a experiência subjetiva por imagens.
  • O filme de Michaux usa recursos simples de edição, luzes pulsantes e zooms, sem tecnologia moderna, refletindo uma visão limitadamente psicodélica da época.
  • O curta de 1971 documenta a ascensão da repressão contra LSD e cannabis, associando a droga à contracultura e aos movimentos de resistência, sob o contexto da guerra às drogas.
  • Mesmo assim, o filme aponta o potencial terapêutico do LSD, mostrando relatos históricos, resultados promissores no tratamento do alcoolismo e críticas às experiências negativas relatadas por usuários.

Nos anos 60, a LSD ocupou um espaço distinto no campo médico e cultural, às vezes como ferramenta terapêutica e outras como símbolo da contracultura. Dois filmes produzidos nessa época ajudam a entender esse vaivém: Imagens do Mundo Visionário, de 1963, e Acid, de 1971.

Imagens do Mundo Visionário foi encomendado pela Sandoz a Henri Michaux, escritor e artista belgafrancês. O curta de 34 minutos busca retratar a experiência com mescalina, tentando traduzi-la em imagens. O realizador admite a dificuldade em transpor o estado mental para o cinema.

O filme, no entanto, mostra limites visuais e aposta em recursos simples como luzes, zooms e fotografias repetidas. A obra reflete ainda a impossibilidade de captar a ineffabilidade da viagem psicodélica, um tema que Michaux aponta como grande desafio da mediação artística.

Do outro extremo ao contexto político

Em 1971, surge Acid, produzido pela Enciclopédia Britânica em parceria com a divisão educacional da Sandoz, hoje ligado à futura Novartis. O curta de 25 minutos acompanha o fortalecimento da repressão às drogas, costumeiro no mesmo período em que Nixon declarou a guerra às drogas.

Ainda assim, Acid evidencia o potencial terapêutico do LSD e apresenta relatos de pesquisadores, incluindo declarações sobre tratamento do alcoolismo com resultados promissores em parte dos voluntários. O tom oscila entre a constatação clínica e a crítica às políticas proibicionistas.

Depoimentos de usuários aparecem como contrapeso, com relatos de más experiências. O documentário aborda as chamadas bad trips, ainda que de forma crítica e com ressalvas em relação à frequência de tais ocorrências.

Este conjunto de filmes mostra uma trajetória dupla: o reconhecimento clínico inicial do LSD e o avanço de uma narrativa de desconfiança e proibição. As obras ajudam a entender como a substância foi integrada, por fases, ao debate público.

Polo político, ciência e indústria

O material também aponta para a participação de grandes players da indústria farmacêutica no desenho de políticas públicas. A Sandoz, conectada à história da Novartis, aparece como financiadora e produtora de conteúdos educativos para congressos médicos.

A relação entre empresas, médicos e instituições educacionais é apresentada como elemento central no desenvolvimento de usos clínicos da droga. Em paralelo, o retrato histórico deixa claro como o clima político pesou sobre a pesquisa e a divulgação.

O contexto atual de interesse renovado por psicodélicos é lembrado como contraste à época de repressão. As obras de Michaux e dos criadores de Acid revelam nuances entre empatia terapêutica e controle social, sem dar a versão final de cada tema.

A produção documental do período demonstra que substâncias psicodélicas já haviam passado por fases de prestígio clínico, antes de serem associadas a controvérsias culturais. O debate contemporâneo continua a explorar esses legados com novas revisões.

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