- Cientistas da USP e do Museu Nacional de História Natural de Paris investigam por que várias espécies de grilo arborícola perderam o canto.
- O estudo analisou mais de cem espécies da família Oecanthidae e gerou uma árvore filogenética para datar origens e mudanças, como a perda do canto ou da audição.
- A perda do canto ocorreu pelo menos onze vezes de forma independente, assim como a perda da audição, indicando evolução convergente.
- Motivos prováveis: cantar atrai predadores e parasitas, além de exigir custos; ambientes com madeira, cascas ou fendas e posições na vegetação influenciam a propagação do som.
- Exceções observadas incluem “cantores surdos” (perdeu a audição, mas ainda canta) e “ouvintes silenciosos” (mantêm audição mesmo sem cantar), sugerindo alternativas de comunicação por vibrações.
O canto dos grilos, uma das trilhas sonoras mais antigas do planeta, intriga cientistas. Pesquisadores brasileiros investigam por que o silêncio parece favorecer algumas espécies de grilos arborícolas.
Em estudo publicado no Journal of Systematics and Evolution, aponta-se que mais de cem espécies da família Oecanthidae foram analisadas. O grupo é diverso, com espécies que cantam, outras com asas reduzidas e algumas sem asas.
Para entender a evolução do canto, os pesquisadores reconstruíram uma árvore genômica do grupo. Ela aponta que o ancestral cantava e ouvia, mas o silêncio surgiu de forma independente em vários ramos.
A perda de canto ocorreu pelo menos onze vezes ao longo da história evolutiva. Em muitos casos, a audição também desapareceu, configurando evidência de evolução convergente: soluções parecidas surgem em linhagens distintas.
O custo do canto é apontado como causa provável da tendência ao silêncio. O som atrai predadores e parasitas, o que pode reduzir a sobrevivência do grilo que canta.
O ambiente influencia o comportamento sonoro. Grilos que vivem em galerias de madeira ou fendas de rochas tendem a ter menos propagação de som, favorecendo o silêncio.
A posição na vegetação também importa. Grilos mudos costumam estar em plantas baixas, onde predadores localizados podem detectar cantores, enquanto os que cantam ocupam o alto das árvores.
Exceções chamam atenção. Em alguns casos, grilos que perderam os ouvidos ainda cantam, enquanto outros que não cantam mantêm a audição. Esses casos são interpretados como estratégias de defesa ou alterações de comunicação.
Outra hipótese sugere que, sem canto, a comunicação passa a ocorrer por vibrações na planta, prática chamada biotremologia. Em laboratório, espécies que não cantam já foram vistas emitindo sinais por batimentos em superfícies.
Seja qual for o caminho, o estudo reforça que a perda de sentidos pode abrir novas formas de comunicação e adaptação. Em muitos casos, o silêncio representa apenas uma mudança de rumo evolutivo.
Os autores ressaltam que os dados de habitat de cada espécie ainda são limitados, mas o padrão observado aponta para uma relação entre canto, audição e ambiente. Grilos não cantam, mas continuam a dialogar.
Para os pesquisadores, a pesquisa com grilos arborícolas demonstra a plasticidade da comunicação animal. O silêncio, em determinadas situações, pode sinalizar evolução rumo a novas estratégias de sobrevivência.
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