- Papiros e pergaminhos carbonizados da Vila dos Papiros, em Herculano, estão sendo decifrados pela primeira vez em quase dois mil anos, com IA e raio X de alta resolução.
- O método de “desenrolamento virtual” faz mapeamento 3D por microtomografia e utiliza IA para reconhecer marcas na fibra do papiro, sem abrir o material.
- Entre os textos revelados estão o filósofo Filodemo de Gádara e um manual de ética da Escola Estoica atribuído a Crisipo, ambos associados à elite da Roma Antiga.
- O projeto Vesuvius Challenge oferece prêmio superior a 1 milhão de dólares para quem avançar na leitura; a equipe da Universidade de São Paulo ficou em segundo lugar, recebendo 50 mil dólares.
- A técnica representa avanço para a arqueologia digital, permitindo estudo de materiais frágeis sem destruição e abrindo caminho para outras obras antigas espalhadas por museus.
Em 79 d.C., o Vesúvio enterrou Pompeia e Herculano, preservando detalhes da vida romana de um modo único. A Vila dos Papiros, à beira-mar, pertenceu a um importante político de anteontem, sogro de Júlio César, e guardava uma extensa biblioteca de textos clássicos.
Durante séculos, a leitura dos papiros ficou inviável: carbonizados, eles pareciam blocos de carvão, e qualquer tentativa de desenrolá-los quebrava o material. O acervo totalizava mais de 600 rolos, até então inacessíveis.
O que mudou foi a convergência entre ciência digital e arqueologia. Técnicas de microtomografia, raio X de alta resolução e inteligência artificial permitem desenrolar virtualmente os rolos sem tocá-los, revelando os textos contidos nas fibras carbonizadas.
Avanço tecnológico e prêmios
O projeto Vesuvius Challenge, criado por Brent Seales e apoiadores, oferece mais de 1 milhão de dólares para quem decifrar textos da biblioteca de Herculano. Em 2023, a primeira palavra foi lida, e em 2024 o grande prêmio foi para a equipe que alcançou trechos com mais de 2.000 caracteres.
A equipe brasileira da USP, coordenada pelos professores Odemir Martinez Bruno e Elian Rafael Dal Prá, ficou em segundo lugar, recebendo 50.000 dólares por contribuições ao desenvolvimento da técnica.
Além do escrito de Filodemo de Gádara, o estudo identificou um manual ético da Escola Estoica atribuído a Crisipo, ampliando o conteúdo disponível sobre a filosofia antiga.
A técnica evoluiu para abranger não apenas a leitura de papiros, mas também a análise de fragmentos de tabuletas cuneiformes e outras obras em museus ao redor do mundo. O método acelera o que antes demandava décadas de trabalho manual.
A pesquisadora Federica Nicolardi, da Universidade de Nápoles, pontuou que os rolos fechados “começaram a falar” de novo, ao receberem nova leitura por meio de IA e imagens digitais. O avanço demonstra que o passado pode ser estudado sem degradar os objetos.
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