- Um estudo publicado no The Lancet mostra que, entre 2020 e 2024, nenhuma mulher de 20 a 24 anos na Inglaterra morreu de câncer de colo do útero, após vacinação aos 12 ou 13 anos e cobertura próxima de noventa por cento.
- No Brasil, a doença matou mais de 7.500 mulheres em 2024, o maior número da série histórica.
- A Organização Mundial da Saúde aponta três pilares para eliminação: imunização, rastreamento e tratamento; seguir os três ao mesmo tempo é essencial para reduzir mortes.
- No Brasil, a vacinação atingiu cerca de oitenta e dois por cento, com resgate para adolescentes de 15 a 19 anos até 31 de dezembro de 2026; o rastreamento está atrasado, com apenas 31% de cobertura do exame Papanicolau entre 2022 e 2024.
- O principal desafio é o tratamento, que exige várias etapas e visitas, tornando o acesso mais difícil para quem tem menos recursos, refletindo desigualdades regionais.
A vacinação contra o HPV tem mostrado impacto direto na redução de mortes por câncer de colo do útero na Inglaterra. Um estudo publicado no The Lancet aponta que, entre 2020 e 2024, nenhuma mulher de 20 a 24 anos morreu pela doença no país, após receber a vacina aos 12 ou 13 anos, com cobertura próxima de 90%.
Os pesquisadores estimam que o programa já tenha evitado cerca de 200 óbitos desde o início, em 2008. Enquanto isso, o Brasil iniciou a vacinação seis anos depois e registrou, em 2024, mais de 7.500 mortes pelo câncer de colo do útero, o maior número já observado na série histórica.
A diferença entre os países envolve não apenas o tempo de vacinação, mas a forma como cada um organiza os três pilares da OMS para eliminação: imunização, rastreamento e tratamento. O Brasil aderiu à estratégia global em 2018 e busca avanços nesses três eixos.
Desafios de rastreamento e tratamento
No Brasil, a vacinação é o componente com maior avanço, com cobertura de cerca de 82% e ações de resgate para adolescentes de 15 a 19 anos até 2026. O rastreamento segue mais lento; entre 2022 e 2024, a cobertura do Papanicolau ficou em 31%, variando de 19% no Amapá a 50% no Espírito Santo.
Em 2024, o SUS passou a incorporar o teste de DNA-HPV, considerado mais sensível. Contudo, a implementação ainda não alcançou todos os 5.500 municípios, segundo especialistas, o que atrasa o diagnóstico precoce. A combinação de etapas — identificação, confirmação e início do tratamento — pode exigir múltiplas visitas a unidades de saúde.
O gargalo do sistema brasileiro reside no tratamento. Completar a linha de cuidado pode exigir até 12 deslocamentos, com procedimentos como colposcopia, biópsia, diagnósticos complementares, cirurgias e sessões de quimioterapia ou radioterapia. Barreiras econômicas e de agenda ocupam espaço entre a detecção e o tratamento efetivo.
Dados regionais apontam desigualdades: em 2024, 32,6% das vítimas tinham 65 anos ou mais, 48,3% eram pardas e 52,3% tinham até sete anos de estudo. O risco de morte no Norte é quase quatro vezes maior que no Sudeste, segundo projeções do Inca.
Panorama global e lições
Em escala mundial, a doença ainda representa uma ameaça significativa, com uma morte a cada dois minutos. Especialistas destacam que o que funciona já é conhecido: manter os três pilares em funcionamento simultâneo. A prioridade é ampliar a cobertura vacinal, ampliar o rastreamento com testes de alta performance e reduzir as barreiras para o tratamento.
Entre na conversa da comunidade