- As novas gerações exigem propósito e impacto nas empresas, além do lucro.
- Larry Fink, CEO da BlackRock, afirma que empresas sem propósito perdem a licença para operar.
- O conceito de *futurewashing* surge como crítica a empresas que prometem inovação sem compromisso real.
- A 2Future Holding, criada por Luís Felipe Neiva Silveira, se destaca por sua integridade e foco em legado.
- A empresa prioriza valores familiares e impacto social, buscando transformar negócios em ferramentas de mudança.
Vivemos um tempo em que as novas gerações não apenas desejam, mas exigem propósito: identidade, coerência e impacto que vão além do lucro. Em mercados cada vez mais expostos, a cultura empresarial tornou-se a coluna que sustenta o crescimento e prepara organizações para os desafios de amanhã. Tal ideia é reafirmada por Larry Fink, CEO da BlackRock, ao dizer que *“sem um sentido de propósito, nenhuma empresa pode alcançar o seu potencial pleno. Ela vai, em última análise, perder a licença para operar de seus stakeholders estratégicos”.*
Essa visão encontra ressonância na de Simon Sinek, autor de *Start With Why*, que costuma lembrar que o propósito é o que conecta as pessoas às empresas de forma autêntica. Segundo ele, *“as pessoas não compram o que você faz, elas compram o porquê você faz”.* Essa conexão entre valores e ação tem sido o motor de transformações profundas no mundo corporativo.
Nesse mesmo contexto, ganharam força termos como ESG, negócios com propósito, desenvolvimento sustentável e ativismo empresarial — acompanhados de novas práticas de comunicação e marketing. Mas nem todas as iniciativas são genuínas. O greenwashing, já bastante conhecido, descreve empresas que se vendem como sustentáveis sem realmente serem. Agora, emerge também o conceito de *futurewashing*: companhias que se apropriam do discurso sobre “futuro” apenas como fachada, prometendo inovação sem compromisso real com novas realidades.
A crítica também é feita por economistas como Mariana Mazzucato, que defende uma abordagem mais comprometida com o impacto social: inovação, para ela, não pode ser apenas uma ferramenta para crescer, ela precisa servir a um propósito maior. Ou, como costuma dizer, *“a inovação deve ser orientada por um propósito, não pelo lucro”.*
Foi para entender a diferença entre discurso e prática que o Portal Tela conversou com Luís Felipe Neiva Silveira, empreendedor e investidor que criou a 2Future Holding.
De Brasília ao mundo
A trajetória da 2Future começou em Brasília, em meio a um ambiente de negócios marcado pela desconfiança e pela prática generalizada da corrupção. Desde a fundação, Luís Felipe estabeleceu um princípio considerado inegociável: não participar de esquemas ou propinas. A decisão gerou perdas comerciais no início, mas acabou consolidando a reputação da empresa. *“Perdemos clientes no início, mas eles voltaram depois porque sabiam que entregávamos de verdade”.*
Esse tipo de escolha remete à filosofia de Ray Dalio, fundador da Bridgewater Associates, que vê a integridade como fundamento essencial para qualquer organização. Para ele, resultados sustentáveis só são possíveis quando há compromisso radical com a verdade e com a realidade, e a 2Future parece ter seguido esse caminho desde o início.
Com a abertura de um escritório em São Paulo e a mudança da família para os Estados Unidos, em 2017, a holding ampliou sua rede de negócios e passou a operar em escala internacional.
O nome 2Future surgiu como um trocadilho intencional com o inglês *to future*, inspirado na mesma lógica de expressões como *to Google* ou *to Tweet something*. A ambição era criar mais do que uma marca: uma palavra capaz de traduzir uma atitude diante do tempo. “To Future It” é como futurar algo — inovar, transformar o futuro, deixar legado, influenciar as próximas gerações”, explica Luís Felipe. Assim, o grupo passou a resumir sua filosofia em um verbo próprio: “futurar”.
Solidez patrimonial e apostas de legado
A 2Future nasceu como um family office, modelo que combina a solidez da gestão patrimonial com a ousadia de apostar em novas frentes. Para Luís Felipe Neiva Silveira, esse equilíbrio é a chave para atravessar gerações: *“O grosso precisa estar em renda fixa ou imóveis, que dão segurança. É aí que o patrimônio cresce com saúde. A tecnologia, as startups, os restaurantes e a vinícola são menores no portfólio, mas são os que mais falam de quem somos e do que acreditamos”.*
Essa forma de ver o patrimônio como ferramenta e não como fim lembra as ideias de James E. Hughes Jr., que escreveu sobre como famílias bem-sucedidas preservam seu legado ao investir mais em capital humano do que em capital financeiro. Para ele, o que sustenta um legado por gerações não é apenas a riqueza, mas a capacidade de formar pessoas com valores e visão.
Esse formato de empresa cumpre também um papel educativo dentro da própria família, preparando os filhos para a sucessão e incentivando autonomia nas escolhas. O objetivo não é criar herdeiros dependentes do patrimônio, mas gestores capazes de tomar decisões de longo prazo baseadas em propósito. *“A 2Future existe antes de tudo para nossa família, e não para o mercado. Queremos que nossos filhos entendam esse legado, mas que façam as coisas por eles mesmos, e não apenas para atender às expectativas externas”,* resume.
Tudo volta ao propósito
Como mencionado anteriormente, por ser um family office internacional, a empresa conta com operações nas Américas, Europa e Ásia, e planos de expansão para a África. O grupo enfrenta desafios específicos em cada mercado, mas entende que a experiência global é essencial para amadurecer processos e refinar o foco estratégico. *“Não dá para fazer todas as frentes darem certo. Hoje entendemos melhor que é preciso montar times qualificados, não apenas contratar no feeling”*, observa Luís Felipe.
Apesar do caráter de gestora patrimonial, a 2Future diferencia-se por sustentar uma cultura baseada em valores familiares e impacto social. Para Luís Felipe, cada negócio precisa ter propósito e oferecer retorno positivo à sociedade: *“O dinheiro é importante para ser sustentável, mas o principal é o impacto positivo”.*
Gente boa por perto
Na 2Future, números não bastam. A cultura organizacional é construída em torno de valores, e isso aparece, antes de tudo, na forma de contratar. Para Luís Felipe, currículo e títulos acadêmicos têm menos peso do que caráter e propósito. *“Mesmo sendo cristão, prefiro um ateu de bom coração, que queira crescer, do que alguém religioso sem caráter. Para mim, o que importa é gente certa, com vontade de evoluir profissional e espiritualmente”.*
Essa ideia se conecta ao pensamento de Satya Nadella, CEO da Microsoft, que vê a cultura como a força invisível que determina como as pessoas agem quando ninguém está olhando. Para ele, uma empresa só se transforma de verdade quando valoriza a empatia e o crescimento humano.
O cuidado vai além da índole: envolve também saúde. Aos 45 anos, o fundador reconhece que a convivência com pessoas mal-intencionadas já trouxe consequências concretas, como estresse e crises de ansiedade. Essa experiência o levou a reforçar ainda mais a importância de proteger o ambiente de trabalho. *“Aprendi que conviver com gente mal-intencionada me faz mal. Hoje só quero pessoas boas por perto. Graças a Deus, sinto que a ‘casa’ está cada vez mais limpa”.*
Esse olhar para o bem-estar no trabalho é compartilhado por líderes como Arianna Huffington, que criou a Thrive Global com base na ideia de que o sucesso não pode ser medido apenas por dinheiro e poder, mas também por equilíbrio, sabedoria e saúde emocional.
Sonhos, autocrítica e o exercício de se conhecer
Apesar da rotina intensa como empreendedor e investidor, Luís Felipe carrega um sonho pessoal: um dia, estudar arquitetura. Fascinado por design e por projetos de cidades futuristas que conciliem tecnologia, sustentabilidade e qualidade de vida, ele enxerga nessa área um espelho de sua própria visão de futuro. “*Adoro arquitetura, acho a coisa mais linda do mundo. Fico fascinado por esses projetos de cidades que unem natureza e convivência. Acho que esse é o caminho para o futuro.”*
Mas entre planos e realizações, há também espaço para autocrítica. Ao olhar para trás, o fundador admite que gostaria de ter iniciado antes um processo de autoconhecimento. *“Se eu tivesse me conhecido melhor dez anos atrás, acredito que todos nós estaríamos em outro patamar hoje.”* A lição, diz ele, é que liderança não se mede apenas por resultados financeiros, mas pela capacidade de extrair o melhor das pessoas — algo possível apenas quando se entende a si mesmo.
Essa percepção é reforçada pela pesquisadora Brené Brown, que há anos estuda liderança autêntica. Para ela, é impossível liderar bem os outros sem primeiro encarar a própria vulnerabilidade e se conhecer em profundidade. Como resume em uma de suas falas mais conhecidas: *“We can’t give people what we don’t have”* (nós não podemos oferecer às pessoas aquilo que nós mesmos não temos).
Legado em construção
Ao completar uma década de história, a 2Future carrega algo maior que patrimônio: ela busca transformar negócios em ferramentas de impacto, pessoas em protagonistas de sua própria trajetória e gerações em guardiãs de um legado.
Esse legado não é feito apenas de imóveis, vinícolas ou startups. Ele está presente na recusa a atalhos, no cuidado com a saúde mental, na criação de ambientes de confiança, no investimento em fé e conhecimento. Está, sobretudo, na convicção de que patrimônio sem propósito é vazio.
No fim, a 2Future não é apenas sobre o presente nem sobre o futuro distante. É sobre o entre — o espaço em que cada decisão se torna uma oportunidade de alinhar patrimônio e transformação.
E se pudesse deixar um conselho para as próximas gerações, Luís Felipe resume em poucas palavras o que aprendeu até aqui: *”Tenha propósito e fé. Busque metas claras, cultive bons relacionamentos, seja inteligente sem perder a integridade. O mundo não é uma utopia, mas é possível ter malícia para estar sempre um passo à frente sem se sujar”.*
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