- O dólar subiu 2,08% frente ao real e o Ibovespa caiu 3,28%, com volatilidade elevada e queda disseminada entre setores.
- A volatilidade acompanha a escalada do conflito no Oriente Médio e a alta do petróleo, com o Brent chegando a quase US$ 84,50 o barril (- quase 9%).
- O Estreito de Ormuz, que concentra cerca de 20% da produção global de petróleo e gás, é visto como risco estratégico de interrupção.
- Economias avançadas podem manter juros restritivos por mais tempo se o preço do petróleo permanecer alto, o que pode atrasar o corte da Selic no Brasil.
- No cenário brasileiro, a queda nas bolsas e a alta do dólar refletem saída de capitais e maior aversão ao risco em mercados emergentes.
Os mercados brasileiros operaram com forte estresse na terça-feira, 3, em meio à deterioração do ambiente externo. O dólar avançou 2,08% frente ao real, chegando a subir quase 3% no intraday. O Ibovespa caiu 3,28%, com perdas maiores no momento de maior volatilidade. O giro financeiro ficou acima da média.
O pano de fundo foi a escalada do conflito no Oriente Médio, que elevou o preço do petróleo no mercado internacional. O Brent subiu quase 9%, para cerca de 84,50 dólares por barril. A preocupação central é o risco de fechamento do Estreito de Ormuz, passagem de cerca de 20% da produção global de petróleo e gás.
Choque externo
A alta do petróleo reacende o temor de um novo choque inflacionário global. Energia mais cara pressiona preços de consumo, transporte e insumos industriais. Se o barril permanecer alto, bancos centrais podem manter taxas restritivas por mais tempo, freando o afrouxamento monetário.
Os preços já refletem esse cenário. A ferramenta FedWatch indica 97% de chance de manutenção dos juros dos EUA em 3,50% a 3,75% na próxima reunião. A probabilidade de estabilidade em abril subiu para 87%.
Realização e incerteza
Para o analista da Levante Inside Corp, o movimento é a soma de fatores externos e ajuste técnico. O investidor aproveita a volatilidade para reduzir exposição, com toques de realização de lucros em mercados emergentes. Ainda não é possível confirmar se é episódio pontual ou tendência.
Segundo ele, o Brent tende a pressionar, mas a reversão pode ocorrer se houver cessar-fogo. O efeito na política monetária brasileira pode atrasar ou reduzir o ritmo dos cortes da Selic no curto prazo.
Risco geopolítico e juros
O gestor da Hike Capital atribui o estresse à escalada do conflito no Oriente Médio. A reação de queda de bolsas e alta do dólar é típica de incerteza geopolítica, porém tende a ser pontual se o choque não se prolongar.
Ele aponta que a duração do impacto sobre petróleo e energia será decisiva. No curto prazo, a alta do petróleo pode pressionar inflação e juros nos EUA, mas a magnitude depende de quanto tempo os preços se mantêm elevados. No Brasil, a desvalorização cambial persistente pode manter juros elevados.
Inflação no radar
A economista da Siegen, Jucelia Lisboa, destaca que o movimento é externo à economia brasileira. A aversão ao risco, com petróleo alto, bolsas em queda e dólar firme, aumenta as preocupações com inflação global e com o Estreito de Ormuz.
Em termos de reação, há busca por proteção em ativos de moeda forte. No Brasil, setores da bolsa registraram perdas, com bancos, varejo e consumo interno entre os mais afetados. A disparada do petróleo pode reduzir o espaço para cortes da taxa básica.
Movimento estrutural ou pontual?
Para Antônio Patrus, diretor da Bossa Invest, o repique tem forte componente externo e está ligado à aversão global ao risco. Uma consolidação estrutural exigiria fatores domésticos, como piora fiscal ou perda de credibilidade da política monetária.
Ele ressalta que energia e combustíveis impactam diretamente os índices de preços. Se o barril permanecer alto, o ciclo de flexibilização pode ser adiado no exterior. No Brasil, não é consenso considerar novos aumentos de juros, mas a pressão cambial persistente pode manter o cenário mais cautious.
Entre na conversa da comunidade