- Estudo publicado na Ambio aponta que 59% das 283 espécies nativas em áreas de restauração da Mata Atlântica têm potencial bioeconômico, principalmente nos setores medicinal, cosmético e alimentício.
- As plantas podem ser exploradas de forma não destrutiva, gerando renda para proprietários, comunidades e povos indígenas, além de apoiar a saúde e a recuperação da floresta.
- A maior parte da Mata Atlântica é de propriedade privada (aproximadamente 75%), e convencer os proprietários de que a restauração é benéfica continua sendo o maior desafio.
- Desde 2009, o Pacto pela Restauração da Mata Atlântica trabalha para restaurar 15 milhões de hectares, envolvendo 17 estados e fortalecendo a cadeia de suprimentos, sementes e viveiros.
- Os benefícios esperados incluem regulação da água, proteção do solo e polinização, mas há obstáculos financeiros, especialmente para pequenos produtores, para manter projetos de restauração a longo prazo.
O restauro da Mata Atlântica brasileira pode depender do mercado para plantas nativas. Pesquisas indicam que iniciativas de recuperação podem aumentar a biodiversidade e fornecer benefícios econômicos, especialmente para proprietários de áreas privadas. O estudo avalia como alinhar restauração com ganhos financeiros.
A pesquisa, publicada na revista Ambio, analisa se espécies nativas de florestas restauradas podem financiar a recuperação por meio de usos medicinais, cosméticos e alimentícios. A equipe mapeou espécies presentes em áreas em restauração e cruzou com patentes setoriais.
O grupo liderado por Pedro Medrado Krainovic, da Universidade de São Paulo, avaliou três cenários: restauração ativa, regeneração natural e plantações de eucalipto abandonadas. Foram identificadas 283 espécies nativas, das quais 59% apresentam potencial de mercado relevante.
Ao cruzar listas com registros de patentes, os pesquisadores constataram que quase 60% dessas plantas têm utilidade comercial significativa. A extração pode ocorrer de forma não destrutiva, como coleta de folhas, cascas ou frutos, gerando renda para proprietários, comunidades e povos indígenas.
Potencial econômico e obstáculos
O estudo aponta que o potencial de bioeconomia pode sustentar a restauração, desde que existam cadeias de suprimento, sementes e mudas disponíveis no mercado. A viabilidade depende de políticas públicas, financiamento estável e infraestrutura de manejo.
Krainovic ressalta que benefícios indiretos à regulação de água, proteção do solo e polinização fortalecem a relação econômica com a restauração. O desafio é convencer proprietários de que o retorno financeiro compensa o investimento.
Financiamentos para restauração ainda são o desafio. Pesquisadores externamente citados indicam que apoio público, NGO e setor privado muitas vezes não cobre custos de longo prazo, dificultando a adesão de pequenos proprietários.
Para reduzir riscos, especialistas sugerem modelos de pagamento fixo ao proprietário, com repasse de renda pela ciência e pelo governo, transferindo parte do ônus do plantio para quem realiza a implementação de políticas públicas.
Caminhos para políticas públicas
Os autores defendem que os resultados podem orientar decisões governamentais sobre restauração e fortalecimento de cadeias de suprimento verde. A ideia é tornar a Atlântica não apenas restituída, mas economicamente viável e sustentável.
O estudo enfatiza ainda a necessidade de educação para proprietários sobre opções de restauração com espécies nativas, em contraste com práticas que privilegiam espécies exóticas, comuns hoje em grandes plantações.
A conclusão aponta que o sucesso depende de uma abordagem integrada: restauração ecológica aliada a incentivos econômicos, assistência técnica e mecanismos de proteção financeira para pequenos produtores.
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