- O IPCA de março mostra alta nos preços de alimentação e transportes, pressionando o orçamento das famílias, principalmente as de menor renda.
- Dados de 2025 da Fundação Getulio Vargas apontam que famílias com renda até 1,5 salário mínimo destinam entre 22% e 22,6% do orçamento à alimentação.
- O gasto com transportes fica entre 10% e 20% da renda, dependendo da região e do uso do transporte público.
- O comprometimento com dívidas é de 29,33% da renda familiar, sendo 11 pontos percentuais apenas para os juros; o Desenrola ajudou, mas o alívio foi parcial e nem sempre durou.
- A inadimplência tem aumentado: crédito direcionado sobe de 1,45% para 3,18%, e crédito livre de 5,54% para 6,90%.
O IPCA de março trouxe novas evidências sobre o aperto no orçamento familiar. A alta de alimentos e transportes pressiona o orçamento, especialmente das famílias de menor renda, aumentando a vulnerabilidade diante de dívidas. O quadro já era delicado, com inadimplência elevando o risco para governo e sistema financeiro.
Dados da Fundação Getulio Vargas indicam que famílias com renda de até 1,5 salário mínimo destinam entre 22% e 22,6% do orçamento à alimentação, três vezes mais do que as famílias de renda mais alta. O gasto com transportes também é relevante, variando de 10% a 20% da renda conforme a região e o uso do transporte público.
Além do peso dos itens básicos, o histórico recente de inflação mostra que, desde 2020, alimentação no domicílio subiu 61,7% e o IPCA avançou 41,8%. O transporte público avançou 37,4%. Essas altas se concentram nos itens mais sensíveis à renda de menor poder aquisitivo.
Desempenho do endividamento e crédito
O endividamento das famílias já vinha em alta, impulsionado por juros baixos e muita oferta de crédito. A reversão desse cenário, com juros mais elevados, reduz a capacidade de pagamento e reforça a demanda por renegociação de dívidas.
O programa Desenrola renegociou dívidas, contribuindo para a queda inicial da inadimplência. Com a alta de juros e nova elevação de custos, muitas famílias voltaram a se endividar; em alguns casos, dívidas antigas foram trocadas por novas, com encargos maiores.
A oferta de crédito ficou mais restrita, levando consumidores a opções mais caras, como cheque especial e rotativo. Hoje, cerca de 29,33% da renda familiar está comprometida com o pagamento de dívidas, sendo 11 pontos percentuais apenas com juros, segundo Rogério Sobreiro, economista-chefe do Banco do Nordeste.
Impacto por tipo de dívida
Ao excluir financiamento habitacional, o comprometimento ainda é de aproximadamente 27% da renda mensal, apontando para endividamento concentrado em linhas de curto prazo, sensíveis a variações de juros.
A piora da classificação de crédito também é um sinal de alerta: bancos ficam mais seletivos diante de inadimplência elevada, reduzindo o acesso a novas linhas de crédito e dificultando a reorganização financeira das famílias.
No crédito direcionado, inadimplência cresceu de 1,45% em jan/2023 para 3,18% em fev deste ano; no crédito livre, subiu de 5,54% para 6,90% no mesmo período, indicando deterioração generalizada da capacidade de pagamento.
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