- O ministro da Fazenda, Dário Durigan, solicitou à Receita Federal um sistema para acabar com a declaração do Imposto de Renda.
- Especialistas apontam que a medida pode aumentar a arrecadação efetiva e o fluxo de dados pessoais ao fisco, elevando privacidade e custos para o contribuinte.
- A Receita Federal descreve o fim da declaração como evolução natural, com o modelo pré-preenchido como base; neste ano, o modelo será aplicado a mais de quatro milhões de pessoas físicas com imposto retido em 2024.
- O pré-preenchimento pode reduzir deduções legítimas e exigir maior atenção do contribuinte na conferência de informações; há ainda dúvidas sobre questões jurídicas e de enquadramento tributário.
- A centralização de dados pode ampliar o poder de fiscalização do Estado, gerando mais retificações e potencialmente impactos sobre a vida financeira dos cidadãos.
A proposta de fim da declaração do Imposto de Renda foi apresentada pelo ministro da Fazenda, Dario Durigan, no fim de março. Ele pediu à Receita Federal um sistema que elimine a obrigatoriedade de enviar a declaração. A ideia é acelerar processos e reduzir burocracia, segundo o governo.
Especialistas ouvidos pela Gazeta do Povo avaliam que a mudança pode aumentar a contribuição efetiva ao Fisco e ampliar o acesso do Estado a dados pessoais. A discussão envolve impactos na privacidade e no custo final para o contribuinte. O tema ainda está em estudo pelo governo.
João Eloi Olenike, do IBPT, vê a automatização como evolução tecnológica, com ponto de inflexão na relação entre cidadão e Estado. Ele aponta riscos de maior tributação efetiva, perda de deduções legítimas e mais retificações. O Ministério da Fazenda afirmou que o tema está em estudo.
Avanço técnico e etapas
A Receita Federal informou que o fim da declaração é um caminho natural, com base no modelo pré-preenchido. O objetivo é tornar o preenchimento mais rápido e confiável, conforme a instituição. O foco inicial será a automação de informações já disponíveis.
Neste ano, o modelo será aplicado a mais de quatro milhões de pessoas físicas com imposto retido em 2024. A restituição deverá ocorrer via Pix, com base em dados do eSocial. A medida representa uma transição gradual para a desobrigação de entrega.
Desafios da automatização
Tatiana Migiyama, da Fipecafi, alerta que a automatização não deve transformar o contribuinte em mero homologador. Ela aponta riscos associados à personalização do preenchimento e à responsabilidade individual pela declaração.
O que se discute vai além da eficiência. Preenchimento automático pode subestimar deduções, como despesas médicas, dependentes ou educação, segundo Olenike. O conservadorismo no pré-preenchimento pode afetar a apuração final do imposto.
Impactos fiscais e de fiscalização
Especialistas também destacam possíveis aumentos na base tributável, mesmo sem mudanças nas alíquotas. A redução de espaço para planejamento pode elevar a arrecadação de 3% a 8%, segundo estudos internacionais citados por analistas.
O aumento de retificações é outra consequência prevista. Erros ou omissões identificados após a entrega poderão gerar mais trabalho para contribuintes e para a Receita. Despesas dedutíveis e ganhos de capital exigem interpretação, não apenas captura automática.
Centralização de dados e governança
A centralização de dados financeiros, bancários e de saúde pode ampliar o poder de fiscalização do Estado. O CEO Marcelo Costa Censoni ressalta a necessidade de garantir contestação pelo contribuinte e segurança da informação. Olenike compara o modelo a sistemas de fiscalização de outros países.
A Receita Federal reiterou que a evolução ocorre com base no aumento da consistência das informações. O objetivo é desobrigar gradualmente o contribuinte do preenchimento, à medida que os dados passam a chegar com maior confiabilidade.
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