- Em Virunga, no leste da República Democrática do Congo, a conservação está entrelaçada com a economia local, violência e desmatamento, em um contexto de governança fraca.
- O manejo do parque envolve buscar alternativas de renda e energia para comunidades próximas, para que a proteção da floresta seja mais viável economicamente.
- Em 2007 houve intensificação da violência e assassinato de gorilas; o enfrentamento com a empresa SOCO levou a investigações, divulgação pública e eventual saída da empresa.
- A estratégia centra-se em energia hidrelétrica, financiamento via cobranças energéticas e bases de segurança comunitárias (FOBs) que promovem desenvolvimento econômico e reduzem a reliance em atividades ilegais.
- O conceito Green Corridor (Couloir Vert) propõe conectar a região leste ao Kinshasa com hubs de energia, processamento de alimentos, logística e proteção, para criar uma economia sustentável que desestimule o conflito.
Virunga National Park, a bastião da biodiversidade na República Democrática do Congo, é palco de uma estratégia de conservação que envolve energia, finanças e segurança para reduzir conflitos que alimentam a exploração de recursos na região leste do país.
Emmanuel de Merode, desde 2008 à frente do parque, diz que a proteção vai além da ecologia: envolve economia local, governança e redes de poder que circulam dinheiro e recursos. A degradação florestal e a caça surgem de formas de sobrevivência.
A história mais marcante é a virada de 2007, quando o assassinato de sete gorilas-dourolos levou à reavaliação de como proteger a fauna. Ao mesmo tempo, ataques a rangers reforçaram a urgência de mudanças estruturais na região.
Goma, cidade de cerca de dois milhões, depende fortemente de carvão para energia. A relação entre pobreza, carvão e proteção ambiental aponta para uma queda de braço entre necessidades locais e conservação global, segundo o relato de de Merode.
A resposta envolve redes de energia hidrelétrica que substituem o carvão como fonte de energia. A Virunga Alliance desenvolveu múltiplas usinas, reduzindo o custo da eletricidade e tornando o uso da floresta economicamente menos atraente.
A inovação inclui um sistema de utilidade social que gera energia, gerencia a rede e reinveste os lucros em comunidades, fortalecendo o desenvolvimento local e desincentivando atividades ilegais ligadas aos conflitos.
Para manter o fornecimento em zonas de combate, o modelo introduz redundância na rede. Linhas paralelas e ligações de “bridging lines” garantem o acesso à água e serviços básicos mesmo diante de hostilidades.
A segurança é integrada ao sistema econômico. Bases de operação avançada (FOB) protegem áreas-chave, enquanto a população participa de decisões de resposta rápida, reduzindo ataques a civis.
Um caso emblemático ocorreu em Mutwanga, onde a presença das FOBs ajudou a reduzir drasticamente a violência, permitindo continuity de atividades agroindustriais e de processamento local.
Na prática, a abordagem funciona como um “carrot and stick”: a segurança dissuade a violência; a economia gera oportunidades que competem com os ganhos do crime e da milícia, fixando pessoas em empregos estáveis.
A produção de cacau, por exemplo, foi reconfigurada para reduzir vulnerabilidades. Substituir o armazenamento de grãos por compras diárias evita sequestro de saques por grupos armados, ao mesmo tempo em que a transformação em chocolate agrega valor local.
A tecnologia sustenta o modelo: dados de campo, sensores e um sistema de tickets criam rastreabilidade, responsabilizando gestores por atrasos ou falhas. A conectividade, inclusive via satélite, é essencial para o funcionamento.
O projeto piloto evoluiu para o conceito de Corridor Verde, ou Congo River Corridor, aprovado em 2025. A ideia é criar uma rede de hubs econômicos que conectem energia, processamento de alimentos, logística e segurança em escala nacional.
O Corridor visa ligar a produção do leste ao consumo em Kinshasa, fortalecendo a interdependência regional. O objetivo é reduzir a fragmentação ambiental e criar um motor econômico capaz de sustentar proteção florestal.
Apesar dos progressos, o cenário permanece volátil. O ressurgimento de conflitos, como o com o grupo M23, danifica infraestrutura e restringe o acesso, expôs vulnerabilidades do modelo econômico.
Mesmo diante desses desafios, a estratégia mantém rascunho de continuidade: rangers, scouts comunitários e bases de segurança operam sob regras que priorizam proteção civil e autonomia operacional, com supervisão da autoridade do parque.
Especialistas ressaltam que a conservação na região não pode ser dissociada da política e do contexto regional. A implementação depende de estabilidade institucional, cooperação entre atores locais e apoio internacional contínuo.
Em síntese, o eixo central de Virunga aposta em transformar energia, finanças e segurança em alavancas para uma economia sustentável que desestimule a extração ilegal. O objetivo é que a proteção seja consequência de um sistema econômico viável, não apenas de leis.
O modelo defende que, quando houver emprego, infraestrutura e crédito acessível, a participação em atividades armadas diminui. A visão para o Congo é uma rede de centros econômicos que protejam a floresta sem abrir mão do desenvolvimento humano.
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