- O Brasil conta com 113 parques tecnológicos em todas as regiões, reunindo cerca de 2,7 mil empresas que faturam mais de R$ 15 bilhões por ano e geram cerca de 75 mil empregos diretos, com quase 7 bilhões de investimentos públicos ao longo de três décadas.
- Ainda assim, o PIB industrial e serviços de tecnologia permanece concentrado em grandes regiões metropolitanas, segundo dados oficiais, sinalizando mismatch entre planejamento e prática.
- Entre 2017 e 2023, pedidos de patentes de empresas nesses parques cresceram mais de 100%, indicando avanço da inovação no interior.
- A OCDE e estudos nacionais apontam que sistemas de inovação distribuídos aumentam a resiliência econômica; o interior oferece vantagem em áreas como logística, agro, saúde, energia e educação, com alto potencial de experimentação rápida.
- Para reduzir desigualdades e ampliar produtividade, é necessário transformar parques e ecossistemas regionais em política de Estado, com medidas territoriais de fomento, compras públicas regionais e integração entre universidade, empresa e governo.
Em ano eleitoral, o Brasil discute crescimento, emprego e redução de desigualdades regionais. Mas onde está a economia do futuro sendo construída no país?
Dados da Anprotec e do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação apontam 113 parques tecnológicos em todas as regiões. Eles concentram 2,7 mil empresas, faturam mais de R$ 15 bilhões/ano e geram cerca de 75 mil empregos diretos. São 30 anos de políticas públicas com quase R$ 7 bilhões de investimentos. Não são iniciativas isoladas.
Ainda assim, a atenção pública continua centrada nos grandes centros. PIB industrial e serviços de tecnologia aparecem majoritariamente nas regiões metropolitanas. A Pintec mostra que empresas inovadoras estão onde já há densidade econômica. O país promete descentralização, mas favorece a concentração.
Interior como laboratório vivo
Em 2026, candidatos voltam a discutir futuro. O desafio é saber se esse futuro ficará nos mesmos bairros ou se se distribuirá pelo território nacional. O Ipea aponta desigualdades regionais como entrave ao desenvolvimento.
Ambientes locais de inovação, conectados a universidades, produzem efeitos multiplicadores. Desenvolvimento territorial não é política compensatória, é estratégia econômica para gerar produtividade com enraizamento regional.
O interior costuma ser mal compreendido. A hinterlândia não é periferia da inovação; é área com vantagens em logística, agro, saúde, energia, saneamento e educação. O laboratório vivo testa soluções rapidamente e com menor custo.
Além disso, o interior possui capital social: redes de confiança, cooperativas e arranjos locais reduzem custos de coordenação. A inovação não depende de modas; depende de resultados.
Parques tecnológicos como instrumentos de política econômica
Entre 2017 e 2023, patentes associadas a empresas de parques tecnológicos cresceram mais de 100%. O movimento indica interiorização gradual da inovação aplicada, ainda que não resolva sozinha a concentração regional.
Em municípios médios, ecossistemas de ciência e tecnologia elevam massa salarial, arrecadação e diversidade produtiva. O efeito é mudança de trajetórias regionais por meio de produtividade com enraizamento.
A OCDE ressalta que sistemas distribuídos aumentam resiliência econômica. Países que descentralizaram polos tecnológicos transformaram regiões fora das metrópoles em motores industriais e científicos.
O ponto não é interior versus capital, mas construir um sistema nacional que difunda capacidades e resultados. O debate de 2026 precisa delimitar onde propostas como industrialização, economia verde e IA serão implementadas.
Caminho para uma política de Estado
Ignorar a hinterlândia de inovação perpetua o modelo concentrador. Mantém-se a visão de que o interior é fornecedor de matéria-prima e consumidor de tecnologia, quando já produz conhecimento aplicado e serve como ambiente de prototipagem.
Valorizá-lo não é romantizar a escassez. É reconhecer eficiência econômica onde já ocorre. Transformar parques e ecossistemas regionais em política de Estado requer fomento territorial, compras públicas regionais, conectividade e governança integrada entre universidade, empresa e poder público.
Paulo R. C. Rocha é gestor, pesquisador em políticas educacionais e vice-presidente do Biopark.
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