- O BIS alerta que as stablecoins podem afetar política monetária, crédito e estabilidade financeira devido à interconexão com o sistema financeiro tradicional.
- O mercado de stablecoins já vale mais de 320 bilhões de dólares, com volumes de transações próximos a 35 trilhões de dólares em 2025, ainda que o uso na economia real seja modesto.
- Há risco de retiradas em massa que deixem os bancos mais dependentes de financiamento maiorista, elevando custos e impactos no crédito.
- Também preocupa a luta contra lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo, já que stablecoins operam em blockchain públicas e carteiras não custodiadas dificultam a identificação de usuários.
- O BIS aponta que, para mitigar riscos, reguladores poderiam permitir acesso a esquemas de seguro de depósitos ou liquidez de bancos centrais a emissores não bancários, para reduzir o contágio ao sistema financeiro.
O Banco Internacional de Pagamentos (BIS) emitiu alerta sobre os riscos que as stablecoins representam para a estabilidade financeira, destacando possíveis impactos sobre política monetária, crédito e vulnerabilidade do sistema bancário. O alerta foi apresentado pelo gerente-geral Pablo Hernández de Cos em discurso realizado no Banco do Japão, na última segunda-feira.
Segundo o BIS, o crescimento das stablecoins, que já ultrapassa 320 bilhões de dólares, contrasta com o peso ainda menor frente aos 8 trilhões de dólares em depósitos bancários apenas nos EUA. O volume de transações globais atingiu cerca de 35 trilhões de dólares em 2025, ainda que o uso na economia real permaneça modesto.
O BIS reconhece benefícios das stablecoins, como facilitar a entrada e saída do ecossistema cripto, facilitar contratos inteligentes e viabilizar pagamentos transfronteiriços mais rápidos. Também podem oferecer acesso rápido ao dólar e a outras moedas, especialmente em economias emergentes, sem depender de infraestrutura tradicional.
Riscos à estabilidade e ao crédito
A instituição ressalva que, se as stablecoins competirem com formas convencionais de dinheiro, haveria impactos relevantes na provisão de crédito, na estabilidade financeira e na política monetária. O principal temor é o risco de crédito: grandes deslocamentos de depósitos para stablecoins poderiam tornar bancos mais dependentes de financiamento mayorista, menos estável e mais caro.
A possibilidade de retiradas maciças de fundos também é destacada. Quando emissores precisam vender reservas para honrar reembolsos, pode haver disrupção nos mercados subjacentes. Se o fluxo de caixa depender dos depósitos, o estresse financeiro pode se propagar rapidamente ao sistema bancário e a outras partes do mercado.
Hernández de Cos avalia que esse efeito poderia atenuar-se se reguladores permitirem aos emissores não bancários de stablecoins acesso a esquemas de seguro de depósitos ou a liquidez de bancos centrais. A preocupação principal, no entanto, envolve a integridade financeira e a prevenção ao uso para lavagem de dinheiro e financiamento do terrorismo.
Controles, vigilância e impasses técnicos
O BIS aponta que a circulação de stablecoins em blockchains públicas, aliada a carteiras não custodiais, dificulta a aplicação de controles de conhecimento do cliente e de combate ao crime financeiro. A identificação de atores ilícitos permanece desafiadora, já que as transações ficam associadas a endereços, não a pessoas físicas.
A instituição também reforça que, na criptoeconomia, a responsabilidade pela conformidade recai sobre validadores, ao contrário do sistema tradicional, em que intermediários atuam para assegurar regras. Esse fator aumenta a necessidade de supervisão robusta para evitar riscos sistêmicos.
A EBA, por sua vez, já tinha apontado que riscos de lavagem de dinheiro vinculados ao setor cripto podem afetar instituições de crédito, de pagamento e de dinheiro eletrônico, em função da maior interconectividade entre áreas financeiras e cripto. O BIS destaca ainda o potencial efeito de dolarização, caso moedas estáveis atreladas a divisas fortes, como o dólar, ganhem peso significativo — o que poderia influenciar a transmissão da política monetária e a soberania monetária de países.
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