- Endividamento recorde: mais de oitenta por cento das famílias estavam endividadas; em março, quarenta e nove por cento com dívidas; quase trinta por cento não tinham condição de pagar as contas em atraso, comprometendo cerca de trinta por cento da renda.
(Observação: dados da Peic, CNC, março; acompanhamento histórico desde 2010.)
- Principais dívidas: cartões de crédito (oitenta e quatro vírgula nove por cento), crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%).
- Inadimplência crescente: Serasa aponta oitenta e um milhãosetecentos mil brasileiros inadimplentes em fevereiro, com dívida média por pessoa de seis mil, quinhentos e noventa e oito reais e treze centavos.
- Causas do endividamento: maior oferta de crédito com mais pessoas com conta em banco, altas taxas de juros e expansão de plataformas de apostas virtuais, as bets.
- Medidas do governo: segunda versão do programa Desenrola em estudo, com possível liberação de até sete bilhões de reais retidos no FGTS; ações para conter apostas; avaliação de impactos em famílias e empresas.
O endividamento de famílias brasileiras atinge recorde histórico, com mais de 80% das famílias endividadas e quase 82 milhões de inadimplentes, segundo a Peic da CNC. O estudo aponta que 29,6% tinham dívidas atrasadas em março e 12,3% não conseguiam pagá-las no mês. O peso dessas dívidas comprometeu 29,6% da renda familiar.
Cartões de crédito lideram as dívidas (84,9%), seguidos por crediários do varejo (16%) e empréstimos pessoais (12,6%). A Serasa aponta 81,7 milhões de inadimplentes em fevereiro, com dívida média de R$ 6.598,13 por pessoa. Especialistas destacam três fatores para o cenário: crédito facilitado, altas taxas de juros e apostas virtuais.
A disseminação de plataformas de apostas, as chamadas bets, é apontada como elemento recente que aumenta o endividamento. Economistas destacam que o consumo via crédito se fortaleceu desde a pandemia, com maior bancarização, mas juros elevados mantêm pressão sobre famílias de baixa renda.
Governo e renegociação de dívidas
O governo discute uma segunda edição do programa Desenrola para renegociação de débitos. Uma das possibilidades é liberar valores retidos no FGTS, estimados em até 7 bilhões de reais, para quitar dívidas. Também há avaliação de medidas para reduzir o uso excessivo de apostas e evitar novos endividamentos.
O ministro da Fazenda, Dário Durigan, afirmou que o programa poderá incluir pessoas físicas e empresas. Economistas destacam que o efeito do Desenrola na inadimplência foi temporário; estudos indicam redução de 2 a 3,5 pontos percentuais em linhas sem garantia, mas o impacto tende a desaparecer em 18 meses.
Relatos de endividados
Casos individuais ilustram o cenário. Barbara, de Santa Catarina, recebe cerca de 20 ligações diárias de cobrança e estima dívidas acima de 20 mil reais. Ela atribui parte do peso a juros do rotativo e aponta que parcelas compensam pouco o orçamento.
Nicole, de 21 anos, na Bahia, perdeu o emprego e vê o vício em apostas como causa de dívidas superiores a 10 mil reais. Ela afirma que não tem perspectiva de pagamento e registra impactos em saúde mental e na vida familiar.
Otávio, de Minas, tem cerca de 30 mil reais em dívidas, fruto de empréstimos e apostas. Ele aponta que o governo tem pouca ação contra as apostas e demonstra pessimismo quanto ao cenário político e econômico.
Perspectivas e pesquisa
A cultura de consumo via parcelamento é tema de estudo de Kauê Lopes dos Santos, da Unicamp, que comenta os impactos de longo prazo e a “alienação do futuro” causada pelo endividamento. Ele ressalta que parcelas comprometem a capacidade de sonhar com melhorias futuras.
O desenho das políticas públicas permanece em debate. Pesquisadores defendem educação financeira, maior transparência de custos de crédito e maior competição entre bancos, além de reduzir juros. A comunicação eficaz do governo é apontada como desafio para atingir diferentes camadas da população.
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