- Pelo menos dois em cada três empresários listados pela Comissão Nacional da Verdade como apoiadores da ditadura vêm de famílias escravistas.
- Dos 62 empresários citados, 40 tiveram antepassados ligados a senhores de escravos, conforme a pesquisa da reportagem.
- O levantamento integra o episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos, sobre o apoio de empresas à ditadura de 1964.
- Entre os sobrenomes lembrados estão Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo, Beltrão e Vidigal.
- Especialistas destacam que a relação entre poder econômico e regime opressor refletia uma lógica de extração e controle sobre trabalhadores, especialmente sindicais.
Pelo menos dois de cada três empresários citados pela Comissão Nacional da Verdade como apoiadores da ditadura militar têm raízes em famílias escravistas. O levantamento acompanha o capítulo Civis que Colaboraram com a Ditadura, presente no relatório final da CNV. A apuração foi feita para o episódio Como Nossos Pais, da segunda temporada do podcast Perdas e Danos.
A pesquisa cruzou dados de 62 empresários citados no documento e, a partir de certidões de nascimento, óbito e batismo disponíveis em Family Search, confirmou que pelo menos 40 pertencem a famílias de senhores de escravos. Entre os sobrenomes listados estão Guinle de Paula Machado, Batista Figueiredo, Beltrão e Vidigal, ligados a grandes estruturas empresariais.
O estudo ressalta o papel da elite econômica na consolidação do regime. Segundo o professor Edson Teles, a lógica de extração domina o modelo da ditadura, com impactos diretos sobre trabalhadores e direitos. A obra aponta ainda o ataque à organização sindical logo após o golpe de 1964 e a queda no poder de compra dos trabalhadores.
Imobilidade social e desigualdade
Pesquisadores destacam que as mesmas famílias detêm o poder por séculos, contribuindo para a imobilidade social. Dados do OCDE indicam que, no Brasil, é difícil ascender socialmente, com trajetórias longas para alcançar a classe média. A desigualdade, por sua vez, permanece elevada, com concentração de renda entre os mais ricos.
Para o pesquisador Marco Antônio Rocha, o país viu queda no poder de compra do salário mínimo e acentuada desigualdade na década seguinte ao golpe. O desfecho, segundo ele, está ligado a alterações na política de indexação diante da inflação.
Outro lado e atualizações
A Cobrasma encerrou atividades em 1998. Gastão Vidigal, acionista do Banco Mercantil, faleceu em 2001, entre os mais ricos. Em 2019, o clã Vidigal voltou ao noticiário, com investigações sobre o Banco Paulista pela Lava Jato, envolvendo suposta lavagem de recursos para a Odebrecht. A reportagem tentou ouvir representantes do Banco Paulista e da Cobrasma, sem obter respostas. A assessoria afirmou apenas que o presidente do banco não é herdeiro direto do financiador da Cobrasma nem tem relação com a empresa.
A matéria também solicitou posicionamentos de Luís Eulálio Vidigal, da Cobrasma, e afirmou que houve questionamentos sobre a ocupação de fábricas pelo Exército em 1968 e sobre o desempenho da empresa durante a ditadura. Não houve retorno às perguntas encaminhadas.
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