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Terra não é escassa no Brasil, planejamento estratégico é que falta

Venda da Serra Verde aos EUA expõe dependência brasileira de terras raras e a ausência de cadeia de valor nacional

Terras raras são estratégicas; Brasil tem reservas, mas exporta valor bruto e perde soberania ao depender de tecnologia e decisões externas. (Foto: Imagem criada utilizando Chatgpt/Gazeta do Povo)
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  • Terras raras são 17 elementos vitais para tecnologia de ponta; o Brasil tem reservas, mas a China domina o beneficiamento e a indústria da cadeia.
  • Serra Verde, única produtora brasileira, foi vendida à USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões, com apoio do governo dos EUA para reduzir dependência da China.
  • Minaçu, em Goiás, opera desde 2024 com cerca de cinco mil toneladas por ano e deve chegar a seis mil e quinhentas até 2027, com financiamento de US$ 565 milhões da U.S. International Development Finance Corporation; há ainda US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio para a aquisição.
  • O Brasil continua como fornecedora de matéria-prima; a maior parte da cadeia de valor — separação química, metalurgia e magnetos — fica fora, em países como Estados Unidos, França e Reino Unido.
  • O governo busca uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, com projetos de lei em tramitação e foco na integração entre pesquisa, indústria e financiamento, para aumentar o valor agregado e a industrialização nacional.

As terras raras, um grupo de 17 elementos da tabela periódica, são vitais para indústrias de alta tecnologia. Minérios de terras-raras não são raros, mas o mercado é dominado pela China, que controla grande parte das reservas e da cadeia de beneficiamento.

No Brasil, Serra Verde era a única produtora em operação e foi vendida à norte-americana USA Rare Earth por US$ 2,8 bilhões. O negócio contou com apoio direto do governo dos EUA, vinculado a estratégias para reduzir a dependência tecnológica da China.

Em operação comercial desde 2024, Serra Verde explora uma mina de óxidos de terras raras em Minaçu (GO). A planta tem capacidade de cerca de 5 mil toneladas por ano, com planos de expansão para 6,5 mil toneladas até 2027.

O financiamento de US$ 565 milhões, originado da U.S. International Development Finance Corporation (DFC), deverá ampliar a produção. A meta é ampliar o uso de recursos para etapas de separação e beneficiamento, com ligação aos EUA.

Outro aporte relevante foi de US$ 1,6 bilhão do Departamento de Comércio, para facilitar a aquisição pela USA Rare Earth. A estratégia envolve cadeia de produção verticalizada fora da órbita de Pequim.

Contexto estratégico

A estratégia aponta para uma cadeia integrada que ligaria mineração no Brasil a separação química, metalurgia e manufatura nos EUA, França e Reino Unido. Países onde a empresa já atua teriam participação na industrialização.

Mesmo com o anúncio, a Serra Verde já era controlada por fundos de private equity dos EUA (Denham Capital e EMG) e pelo investidor britânico Vision Blue. Houve apenas troca de proprietários estrangeiros.

Essa operação reacende o debate sobre a capacidade brasileira de impor interesses nacionais em meio a agendas de grandes potências, com apoio estatal a projetos estratégicos no exterior.

Panorama do setor

O Brasil enfrenta dificuldades para agregar valor às suas riquezas naturais, especialmente após 1990, quando o tema ganhou destaque global. A produção de terras raras no país envolve, hoje, projetos com participação de empresas estrangeiras.

No conjunto de cerca de 30 projetos em andamento, a maioria envolve empresas da Austrália, EUA, Canadá, França, Reino Unido e Chile. A gestão de políticas públicas tem sido alvo de discussões sobre eficiência e integração industrial.

O governo trabalha para acelerar uma Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos, em tramitação desde 2023. A ideia é estruturar uma cadeia produtiva com maior valor agregado e maior domínio estratégico.

A discussão envolve, ainda, mudanças regulatórias para licenciamento ambiental, previstas na Lei Geral do Licenciamento, que poderiam facilitar aprovações para projetos estratégicos. O arcabouço busca reduzir protelações.

Para avançar, o país precisa integrar empresas, universidades e instituições de pesquisa, além de apoio de bancos públicos como BNDES e Finep. O objetivo é reduzir a dependência externa nas etapas finais da cadeia.

O desafio é grande diante de turbulências globais e do cenário eleitoral brasileiro. A adoção de uma política industrial capaz de articular linkages entre mineração, metalurgia e indústria pode definir o papel do Brasil na economia global de terras-raras.

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