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Brasil não prova controle de fazendas indiretas na carne para exportação aos EUA

Exportação de carne brasileira aos EUA dispara, mas rastreabilidade até fornecedores indiretos permanece sem auditoria, comprometendo a comprovação de origem sem desmatamento

Bandeja de carne com notas de dólares — Foto: Getty Images
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  • Em 2025 o Brasil exportou 271,8 mil toneladas de carne bovina para os EUA, oito vezes mais que em 2016 (33,2 mil toneladas).
  • Um estudo do Radar Verde analisou sete empresas e quinze frigoríficos e mostrou baixa eficácia das políticas de controle de desmatamento, com nenhum divulgando dados auditados sobre fornecedores indiretos.
  • Embora 11 dos 15 frigoríficos demonstrassem controlar fornecedores diretos, não houve publicação de evidências de rastreabilidade sobre fornecedores indiretos.
  • A exposição ao risco de desmatamento varia de 144 mil hectares a 2,8 milhões de hectares entre os estabelecimentos, sendo Frialto a empresa com maior exposição.
  • Setenta e três por cento dos frigoríficos analisados assinaram TAC com o Ministério Público em 2025, mas não houve retorno sobre políticas de controle; o estudo recomenda ampliar rastreabilidade e tornar dados públicos.

Em 2025, o Brasil exportou 271,8 mil toneladas de carne bovina para os Estados Unidos, oitava vez mais que em 2016 (33,2 mil toneladas). O crescimento acelerou a partir de 2020 e atingiu novo recorde no ano passado, impulsionado pela inflação de alimentos nos EUA e pressões climáticas na produção mundial.

Radar Verde mostra descompasso entre aumento de volume e capacidade de rastreabilidade. O estudo avaliou 7 empresas, com 15 frigoríficos autorizados a exportar para os EUA. O resultado: 100% apresentaram eficácia baixa ou very baixa nos mecanismos de controle de desmatamento.

A análise aponta que 11 dos 15 frigoríficos demonstraram algum controle sobre os fornecedores diretos, ou seja, as fazendas que vendem animais diretamente aos frigoríficos. Contudo, nenhuma empresa publicou dados auditados sobre fornecedores indiretos, o elo anterior na cadeia.

Esse vínculo indireto é o principal foco de fragilidade citado pelo estudo. Sem rastreabilidade verificada de toda a cadeia, não é possível confirmar que o gado processado não tenha relação com áreas embargadas ou com desmatamento recente, nem com regiões de alto risco entre 2025 e 2027.

A exposição ao risco de desmatamento varia entre 144 mil hectares e 2,8 milhões de hectares por frigorífico. O maior risco recai sobre a Frialto (Vale Indústria e Comércio de Alimentos S/A), com dois frigoríficos licenciados para exportar ao EUA, em Matupá (Mato Grosso) e Ji-Paraná (Rondônia).

Conforme o Radar Verde, 93% dos frigoríficos analisados assinaram TACs com o Ministério Público Federal em 2025, comprometendo-se a não comprar gado de fazendas ligadas a desmatamento ilegal. Ainda assim, nenhuma empresa respondeu a pedidos diretos de informações sobre políticas de controle.

Implicações regulatórias

A comparação com a proposta da Forest Act de 2023, em tramitação no Congresso dos EUA, evidencia que as empresas brasileiras hoje não atenderiam aos requisitos, que incluem rastreamento de toda a base de fornecimento e declaração eletrônica de origem lícita. Além disso, dados de cadeias de suprimento deveriam ficar públicos e atualizados anualmente.

O estudo ressalta que o cenário atual não garante conformidade com as regras propostas, o que pode afetar o mercado americano, que já movimentou cerca de US$ 1,1 bilhão em 2022 com carne bovina e couro do Brasil. A proposta também prevê incentivo: empresas com origem sustentável obteriam vantagem de 10% em licitações públicas norte-americanas.

Recomendações do Radar Verde

Entre as sugestões, o relatório recomenda priorizar frigoríficos em áreas com menor risco de desmatamento e exigir políticas cobrindo diretos e indiretos, com verificação por auditoria independente. Também defende transparência pública de dados de rastreabilidade, integrando GTAs com o CAR e planos de recuperação ambiental (PRA).

A implementação da Forest Act deveria ir além do combate ao desmatamento ilegal e incluir proibição de importação de áreas desmatadas recentemente, mesmo quando o desmatamento ocorreu sob regimes legais, para evitar deslocamento do problema.

Desafios e agenda

O estudo enfatiza que o tema envolve não apenas reputação corporativa, mas também conservação de florestas, clima e segurança alimentar. Eventos climáticos extremos já pressionam a produção global, o que coloca a rastreabilidade como elemento central para manter o acesso ao mercado norte-americano sem comprometer a sustentabilidade.

  • Dayane Nascimento, repórter e coordenadora de projetos do O Mundo Que Queremos.

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