- A fome mundial caiu de 65% da população em 1950 para 8,2% em 2024, segundo o relatório SOFI 2025 da FAO, apontando foco em organização, não apenas produção.
- Desperdício e perdas leves na origem, sobretudo em países de renda baixa, somam cerca de 1,3 bilhão de toneladas por ano, com custos acima de US$ 1 trilhão.
- No Brasil, o desafio é dependência de fertilizantes importados (cerca de 88%); o país é exportador relevante de soja, carne, café e suco, mas vulnerável a choques de cadeias.
- A solução passa por incentivos e reformas: redução de custos via fiscalidade, regras simples de validade de alimentos (best before) e abertura ao capital para ampliar armazenagem e distribuição.
- Segurança alimentar é tratada como agenda de civilização: envolve alinhamento entre setor privado e público, não apenas gasto público, e exige coragem de mudar o sistema, especialmente em ano eleitoral.
A fome não é ausência de alimento, e sim falha de organização. O debate público precisa distinguir diagnóstico de diagnóstico errado. Dados da FAO apontam que, em 1950, 65% da população mundial vivia em fome crônica; em 2024, essa proporção caiu para 8,2%, segundo o relatório SOFI 2025. O desafio é estrutural, não agrícola.
A privação persiste por descoordenação entre produção, armazenamento e distribuição. Globalmente, 30% a 40% da produção é perdida nos países de menor renda por falhas logísticas. Um terço de tudo o que é produzido é desperdiçado, com custo acima de US$ 1 trilhão por ano.
A situação revela desigualdades. O desperdício é maior no varejo de países ricos, enquanto perdas na origem afetam mais os países pobres. A intermediação fica concentrada em poucos agentes; a distribuição final depende de milhares de operadores informais sem crédito ou escala.
Mudanças visíveis a partir de choques
A guerra na Ucrânia expôs a fragilidade de cadeias dependentes de poucos corredores logísticos. Tensões no Oriente Médio, ao afetarem o Estreito de Ormuz, elevam custos de fertilizantes e petróleo, impactando a segurança alimentar global.
No Brasil, os efeitos são diretos. Em março de 2026, as importações de fertilizantes cresceram mais de 60% frente ao ano anterior, indicando um padrão de vulnerabilidade frente a disrupções internacionais.
Brasil: posição dupla de força e risco
O país já foi protagonista de transformações produtivas, com Embrapa (1973) e abertura econômica dos anos 1990, ampliando a produção de grãos e tornando-se líder global em soja, carne, café e suco de laranja. Contudo, dependências persistem: cerca de 88% dos fertilizantes são importados.
Mais da metade das exportações de carne bovina e aproximadamente 70% da soja vão para a China, país que também tem papel relevante no mercado de insumos. Ou seja, o Brasil vende e depende de um mesmo sistema de produção.
Regulação, incentivos e custos
A resposta tradicional tem sido ampliar o papel do Estado, mas isso não basta. Segurança alimentar depende de incentivos, não apenas de gastos. Em São Paulo, o Consea-SP reúne produtores, processadores e distribuidores para reorientar o foco para barreiras privadas que atrapalham o abastecimento.
A raiz do problema está na dimensão fiscal. Juros reais elevados elevam o custo de financiamento agrícola e de giro no varejo, impactando o consumidor mais pobre. Política fiscal, portanto, é também política alimentar.
Caminhos de melhoria e obrigações públicas
A dimensão regulatória precisa simplificar regras, adotando critérios como o conceito de *best before* para reduzir desperdícios sem risco à saúde. A abertura de capital para fertilizantes pode aumentar investimento, armazenamento e infraestrutura.
Há ainda a necessidade de melhoria de incentivos para transformar cadeia de produção. A alta carga tributária, a insegurança regulatória e o custo de capital penalizam quem investe em transformação.
Encaminhamentos para o curto prazo
Tecnologia disponível pode melhorar logística e acesso a crédito no varejo, mas não resolve o core: regras e incentivos. Segurança alimentar exige coordenação entre setor público e privado, com foco em organização da cadeia.
A discussão no Brasil envolve decidir entre manter exportação de volume ou valor agregado. A maior dobra é avançar na verticalização, reduzindo dependência externa e fortalecendo infraestrutura de produção, armazenamento e distribuição.
Observação sobre fontes e contexto
As informações destacam dados da FAO, do relatório SOFI 2025, e análises sobre políticas públicas brasileiras. O texto enfatiza a necessidade de reformas para reduzir desperdícios, melhorar governança e sustentar produção agrícola frente a choques geopolíticos.
Gerardo Figueiredo Junior é sócio fundador do Zeigler Advogados e presidente do Consea-SP. Gustavo Diniz Junqueira foi secretário de Agricultura de São Paulo (2019-2021) e atua no Consea-SP.
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