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Desenrola cria cultura que ignora causas do endividamento, diz pesquisador

Desenrola 2.0 é visto como alívio imediato, mas pode consolidar cultura de renegociação e adiar soluções estruturais do endividamento no Brasil

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  • Desenrola 2.0 foi lançado oficialmente em 4 de maio e oferece renegociação de dívidas com descontos e condições facilitadas para pessoas com renda de até cinco salários mínimos (R$ 8.105).
  • O programa prevê juros menores como parte da estratégia de facilitar o pagamento, sobretudo para quem está inadimplente ou em insolvência.
  • O pesquisador Kauê Lopes dos Santos diz que o crédito se tornou parte do modo de organizar o orçamento familiar e que o parcelamento aumenta o comprometimento da renda.
  • Dados recentes apontam recorde de endividamento: 80,4% das famílias estavam endividadas em março, segundo a Peic, e 81,7 milhões estavam inadimplentes em fevereiro, com dívida média de R$ 6.598,13.
  • Há a leitura de que políticas como Desenrola podem ter efeito de curto a médio prazo e podem, em hipóteses, dificultar a solução das causas estruturais do endividamento.

O pesquisador Kauê Lopes dos Santos analisa como o consumo financiado por crédito se tornou parte do orçamento doméstico nas periferias de São Paulo. Em reportagem sobre o livro Parcelado, ele aponta que o crédito sustenta o consumo, mas pode agravar a inadimplência frequente. A conversa destaca o papel das políticas públicas nessa dinâmica.

Para ele, o Desenrola 2.0, lançado pelo governo em 4 de maio, sinaliza reconhecimento de problemas, mas pode ampliar a cultura de renegociação de dívidas. O pesquisador alerta que esse caminho pode resolver apenas o curto e o médio prazo, sem atacar causas estruturais do endividamento.

A metodologia do estudo envolve dados de fontes como a Peic, que aponta recorde de endividamento em março, e a Serasa, com quase 49,9% da população adulta inadimplente em fevereiro. O quadro mostra parcela significativa da renda comprometida por dívidas e juros elevados.

Desenrola 2.0 oferece renegociação com descontos e condições facilitadas para quem ganha até cinco salários mínimos. O programa visa dar fôlego a famílias de baixa renda, abrindo novamente espaço para consumo, segundo a análise de Lopes dos Santos.

O geógrafo destaca que o varejo, aliado ao sistema financeiro, criou uma lógica de parcelamento em prestações longas e juros altos. Ele descreve uma tendência de endividamento crônico que compromete o orçamento mensal e pode levar a novos empréstimos para quitar dívidas anteriores.

Contexto e impactos

Segundo o pesquisador, a inclusão financeira trouxe ganhos objetivos, como acesso a bens modernos, mas também custos. A taxa de juros elevada e a necessidade de parcelas constantes podem impedir o planejamento de longo prazo, aumentando o risco de insolvência.

A entrevista ressalta ainda o papel das apostas online (bets), que ampliam a vulnerabilidade de famílias já endividadas. Pessoas endividadas por bets costumam recorrer a linhas de crédito com juros ainda mais altos para cobrir déficits.

Perguntas sobre políticas públicas

Lopes dos Santos aponta caminhos como educação financeira mais ampla, redução de juros em combinações políticas e aumento da renda para reduzir vulnerabilidade. Ele ressalta que reformas exigem ações coordenadas entre educação, renda e políticas de crédito.

O pesquisador avalia que o Desenrola 1 teve efeito de curto prazo, servindo de cobertura para bancos com menor risco. A continuidade do programa e o efeito da transição para o Desenrola 2.0 merecem monitoramento para entender se reduzem o endividamento ou apenas adiam problemas.

Observação sobre o FGTS e apostas

A proposta de usar até 20% do saldo do FGTS para quitar dívidas é discutida por especialistas. A medida diverge entre setores da economia, que veem impacto na função original do FGTS e na construção civil. A discussão, porém, permanece aberta entre atores públicos e privados.

Lopes dos Santos comenta sobre a ideia de restringir apostas, citando a experiência de outros países. Ele afirma que limitar apostas pode representar uma forma de proteção para famílias vulneráveis, diante de impactos graves no orçamento familiar.

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