- Pesquisa da NTC&Logística aponta que oitenta e oito por cento das transportadoras têm dificuldade para contratar caminhoneiros e motoristas agregados, elevando a ociosidade de frotas.
- Em empresas com veículos parados, a média é de oito caminhões sem operação por falta de profissionais.
- CNTA/ANATC mostram queda no número de motoristas habilitados para veículos pesados, de cerca de 3,5 milhões em 2014 para 1,3 milhão em 2024, com idade média de 46 anos.
- A tecnologia embarcada, com câmeras e rastreamento, aumenta a segurança, mas esfria a atratividade da profissão, que exige horários longos e alto controle.
- A solução apontada envolve ações conjuntas de setor público e privado para tornar a profissão mais atrativa, incluindo formação, valorização profissional e modelos de contratação que preservem a viabilidade das operações.
A crise no transporte de cargas no Brasil se agrava com a dificuldade de contratar caminhoneiros. Dados da NTC&Logística, divulgados em março, mostram que 88% das transportadoras enfrentam dificuldades para contratar motoristas e agregados, prejudicando operações e aumentando a ociosidade das frotas.
A situação é mais crítica para o transporte de cargas químicas, que exige mão de obra especializada e treinamento específico. Profissionais do setor relatam déficits de pessoal e maior rigidez na segurança, o que dificulta a reposição de quadro.
Segundo Gislaine Zorzin, diretora administrativa da Zorzin Logística, há caminhões parados por falta de motoristas. Ela também atua como diretora institucional da ABTLP, destacando que o perfil técnico dos profissionais é cada vez mais exigente.
Menos motoristas nas estradas
Dados da CNTA, representados pela ANATC, revelam queda no número de motoristas habilitados para veículos pesados, de 3,5 milhões em 2014 para 1,3 milhão em 2024, um recuo de cerca de 62%. A idade média fica em 46 anos, com diminuição do interesse entre jovens.
A diretora da Zorzin aponta que o ritmo de tecnologia embarcada traz ganhos de segurança, mas gera resistência entre parte dos profissionais. Câmeras, rastreamamento e controles internos elevam o nível de fiscalização dentro das operações.
Além da vigilância, a rotina pesada e as longas jornadas afastam novos talentos. A percepção é de que poucos entram na profissão por vocação, em razão do trabalho intenso e da pressão operacional constante.
Competição com apps e exigências
As transportadoras veem os aplicativos de transporte como concorrência direta pela mão de obra. Horários flexíveis e menos controle operacional atraem profissionais que antes atuavam no segmento de cargas. A exigência de habilitação profissional também pesa, já que motoristas de apps podem começar com CNH B, enquanto caminhoneiros precisam de habilitação específica e exames complementares.
Apesar das dificuldades, parte das regras de segurança trouxe avanços. O toxicológico tornou-se obrigatório em 2016, com queda de acidentes em rodovias federais e menos motoristas dirigindo sob efeito de álcool, segundo dados da Polícia Rodoviária Federal.
A crise ocorre em meio a pressão de custos. A NTC&Logística aponta que mão de obra representa 19,5% dos custos do setor, ficando atrás de combustível e veículos. Em dois anos, o custo com mão de obra subiu 13,42%.
Caminhos para a solução
Especialistas defendem ação conjunta entre empresas, associações e poder público para tornar a profissão mais atrativa. Medidas incluem valorização profissional, melhores condições de trabalho e formação de novos motoristas. Programas de incentivo à CNH profissional já são discutidos pela indústria.
Algumas empresas estudam modelos de contratação que remunerem melhor os motoristas sem comprometer a sustentabilidade logística. Em paralelo, debates sobre o papel de veículos autônomos ganham espaço, com cautela: a tecnologia avançou em mineração, mas ainda depende de infraestrutura e legislação para uso em vias públicas.
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