- A desocupação de garimpeiros nas Terras Indígenas Munduruku não eliminou a rede econômica que sustenta a mineração ilegal no sudoeste do Pará.
- O estudo aponta que o garimpo ilegal continua reorganizando cidades, rotas comerciais e estruturas urbanas no Vale do Tapajós.
- O garimpo funciona como um circuito econômico e logístico complexo, conectando comércio, transporte, abastecimento, circulação financeira e rotas clandestinas.
- Itaituba e Jacareacanga aparecem como polos históricos; após a desintrusão de 2025, a atividade manteve influência econômica e impactos territoriais.
- Entre as medidas recomendadas, estão o combate aos mecanismos de comercialização do ouro, vigilância territorial indígena e o desenvolvimento de alternativas econômicas sustentáveis.
Ao menos parcialmente eficazes, as ações de desintrusão de garimpeiros ilegais nas Terras Indígenas Munduruku, no sudoeste do Pará, não desmontaram a engrenagem financeira que sustenta a mineração na região. Um estudo conjunto do Instituto Mãe Crioula e da Uepa mostra que o garimpo continua reorganizando cidades, rotas e estruturas urbanas no Vale do Tapajós, mesmo após 2025.
A pesquisa, baseada em trabalho de campo, entrevistas, registros com drones e análises cartográficas, aponta que o garimpo ilegal funciona como um sistema econômico regional. Há articulações entre comércio, transporte, abastecimento de combustível, circulação de recursos e rotas clandestinas, que vão além da simples retirada de acampamentos.
A ideia central é que desmontar apenas acampamentos não basta para impedir a reorganização da atividade. O estudo recomenda atacar a cadeia de comercialização do ouro, com foco em distribuidoras de títulos e valores mobiliários e pontos que legalizam ouro de origem ilícita. O relatório também trata da lavagem de dinheiro e de conexões com mercados internacionais.
Economia
O documento afirma que o garimpo ilegal depende de uma cadeia ampla que envolve postos de combustíveis, oficinas, transportes, comércio urbano e serviços financeiros. Além disso, o insumo como mercúrio, cianureto e maquinário sustenta as frentes garimpeiras, mantendo redes logísticas ativas.
Balsas fluviais, pistas clandestinas e rotas terrestres continuam operando como estruturas centrais da atividade ilegal. As redes garantem mobilidade, abastecimento e circulação de recursos entre comunidades e centros urbanos. A dependência econômica se reflete na infraestrutura local de Itaituba e Jacareacanga.
Itaituba, um polo do sudoeste paraense, apresentou queda na movimentação financeira após as operações de desintrusão, segundo o estudo. Sem ações estruturais, afirma a pesquisa, os efeitos se mostram temporários e há risco de realocação para outras áreas ou retorno aos territórios desintrusados.
Pressão sobre rios e territórios
O relatório indica impactos persistentes nos rios da região, como assoreamento e alterações na qualidade da água, decorrentes da atividade garimpeira. Tais mudanças afetam modos de vida tradicionais dos Munduruku, que dependem do ambiente para alimentação, transporte e atividades diárias.
Entre as prioridades imediatas apontadas, estão vigilância territorial com participação indígena, recuperação ambiental, monitoramento de mercúrio e fortalecimento de cadeias produtivas sustentáveis. A participação indígena é destacada como estratégica para evitar o retorno do garimpo.
O desafio do pós-garimpo
Para superar a dependência do ouro, o estudo defende modelos de desenvolvimento adaptados à realidade amazônica, com apoio a economias indígenas e comunitárias. Alternativas propostas incluem agroflorestas, manejo comunitário, reflorestamento, agroecologia, pesca e fortalecimento da sociobiodiversidade.
Os autores ressaltam que o combate ao garimpo ilegal não depende apenas de ações policiais, mas de uma presença estatal contínua e da criação de alternativas econômicas sustentáveis para os municípios historicamente ligados ao ouro.
Entre na conversa da comunidade