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Por que países desenvolvidos podem trabalhar menos

Redução da jornada depende de ganhos de produtividade e investimentos; no Brasil, mudança pode elevar custos, exigir eficiência e provocar substituição de trabalhadores

Com maior produtividade, países desenvolvidos podem trabalhar menos. (Foto: OLustração - Gazeta do Povo com DALL-e)
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  • A PEC em tramitação propõe reduzir a jornada de trabalho, sustentada como forma de melhorar a qualidade de vida e manter salários altos, sem prejudicar a competitividade.
  • Economistas destacam que produtividade, não esforço individual, explica jornadas menores em países desenvolvidos; Alemanha, França, Dinamarca geram em média quase US$ 90 por hora trabalhada, frente a US$ 17–21 no Brasil.
  • No Brasil, gargalos como infraestrutura precária, logística cara, burocracia e insegurança jurídica limitam ganhos de produtividade; a redução de horas depende de avanços anteriores nesse campo.
  • Com aumento dos custos trabalhistas, empresas podem ajustar substituindo mão de obra mais cara por menos qualificada, repassando custos a preços e acelerando automação; mudanças abruptas costumam reduzir empregos.
  • A alternativa defendida é implementação gradual via negociações coletivas, como ocorreu no Chile, com redução para quarenta horas condicionada a metas de produtividade negociadas entre patrões e trabalhadores.

A Proposta de Emenda à Constituição que pode encerrar a escala 6×1 está sob análise no Congresso. Defendentes afirmam que a mudança modernizaria as relações de trabalho e elevaria a qualidade de vida. A ideia seria permitir jornadas menores com salários estáveis e empresas competitivas.

Especialistas destacam que a produtividade é o núcleo da discussão. Países desenvolvidos trabalham menos porque geram mais por hora. Dados da OCDE apontam Alemanha, França e Dinamarca com produtividade elevada em relação ao Brasil, que fica entre US$ 17 e US$ 21 por hora trabalhada.

A lógica da produtividade envolve mais do que esforço individual. Tecnologia, infraestrutura, gestão, qualificação, ambiente regulatório e investimentos influenciam a capacidade de produzir mais em menos tempo, dizem estudiosos de trabalho.

Entendimento sobre produtividade

José Pastore, da USP, afirma que o ganho não depende apenas do trabalhador. A soma de capital, eficiência e capital humano impulsiona a produção. Automação, logística eficiente e educação de qualidade são exemplos citados como fatores-chave.

Pastore lembra que a redução da jornada ocorreu após décadas de avanços tecnológicos e expansão industrial. “O processo demanda tempo e planejamento; não é possível impor de forma rápida”, diz.

Relação entre PIB e jornada

Hélio Zylberstajn afirma que o histórico mostra o crescimento do PIB associada à redução da jornada. Em modelos atuais, ampliar a produção costuma reduzir horas trabalhadas, segundo ele. A PEC, na visão dele, colocaria custos adicionais para empresas e trabalhadores.

Estimativas com base na PNAD Contínua indicam que reduzir quatro horas semanais exigiria ganho de produtividade de 8,5% para manter o nível de produção. O desafio é considerado relevante para o Brasil, com produtividade relativamente estagnada.

Repercussões para empregadores

Diante do aumento do custo do trabalho, empresas podem buscar ajustes. Zylberstajn cita possibilidades como repassar custos, substituição por mão de obra menos cara, aceleração de automação e redução de investimentos. Nenhum ajuste seria benéfico para trabalhadores, segundo ele.

Pastore resume que, diante de custos crescentes, as organizações tendem a reagir por meio de quatro caminhos: preços, substituição, automação ou menor expansão. A visão dele é de que esse conjunto de mudanças não favorece o trabalhador.

Caminhos de implementação

Para Zylberstajn, a transição poderia ocorrer de forma gradual, com negociação entre trabalhadores e empresas, como no Chile. A proposta sugerida envolve reduzir a jornada para 40 horas com ganhos de produtividade negociados entre as partes.

Pastore afirma que a PEC é desnecessária, pois acordos entre sindicatos e empresas já permitem reduzir jornadas. Em muitos países, acordos setoriais definem horas efetivas, não sendo uma imposição legal única.

Modelos internacionais e prática governamental

Alemanha, França, Holanda e Dinamarca reduziram jornadas por meio de acordos coletivos. Bélgica adotou semana de quatro dias opcional. Espanha, Itália e outros seguem caminhos diversos sem mudança legal ampla.

Pastore cita que cerca de 190 países adotam modelos negociados, versus 10 com mudanças legais amplas. A ideia é flexibilizar, não impor modelo único, segundo ele.

Perspectivas políticas e setoriais

Setores variados têm necessidades distintas, o que dificulta uma regra única. Laticínios, pecuária, supermercados, hospitais e transporte demandam jornadas diferentes, aponta o debate técnico.

A tramitação da PEC já avançou na Comissão de Constituição e Justiça, com expectativa de plenário ainda em maio. A agenda eleitoral intensifica o ritmo de discussões sobre o tema, mantendo o foco em fatos e impactos técnicos.

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