- O Banco Digimais usou fundos de investimento dos quais é cotista para limpar seu balanço, ocultando créditos vencidos de centenas de milhões de reais.
- Foram registrados investimentos totais de cerca de R$ 3 bilhões em fundos, com auditorias indicando dificuldades para auditar essas demonstrações financeiras.
- Uma das operações envolveu o fundo Hermon, comprado pela holding ligada à Igreja Universal, com avaliação de risco e questionamentos sobrecee, sem retorno imediato de ativos.
- O banco declarou lucro de R$ 31 milhões ao fim de 2025, mas as operações teriam deixado de reconhecer ao menos R$ 480 milhões em créditos vencidos.
- O Digimais disputa a venda para o BTG Pactual, com participação do FGC em eventual operação, e a direção atual inclui um ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil.
O Banco Digimais, controlado pela igreja ligada ao bispo Edir Macedo, utiliza fundos de investimentos para ocultar perdas multimilionais em seus balanços. Documentos analisados pelo Estadão mostram que carteiras de financiamentos com alto índice de inadimplência foram retiradas das demonstrações financeiras. Além disso, houve venda de precatórios não plenamente quitados à própria holding de Macedo, o que acionou alertas entre auditores.
Especialistas ouvidos pela reportagem descrevem operações como de alto risco regulatório, com sinais de irregularidade. A Polícia Federal investiga o banco por supostas fraudes, e o Digimais não se manifestou. A Igreja Universal também não comentou o assunto.
O Digimais não é uma instituição de grande visibilidade entre o público, não possui agências e não oferece transações via Pix. Desde 2020, o banco manteve-se sob a alçada da família de Macedo, que ampliou a carteira de crédito veicular e, mais recentemente, o crédito consignado.
Estrutura de fundos e impactos contábeis
Documentos indicam que fundos de investimento, dos quais o Digimais é cotista, serviram para mascarar créditos vencidos. O banco declarou lucro de 31 milhões de reais ao final de 2025, mas deixou de reconhecer, ao menos, 480 milhões de reais em créditos vencidos. O montante de investimentos em fundos administrados pelo Digimais soma 3 bilhões de reais, não auditados por ausência de documentos comprovantes.
Os fundos absorveram carteiras de crédito com elevado índice de inadimplência do banco. Em parte dessas operações, o Digimais figura como cotista, o que configura a prática conhecida como Zé com Zé, na qual o banco atua como vendedor e comprador do próprio crédito, dificultando a leitura real do risco pelo mercado.
No passado, o financiamentos de veículos era o principal negócio do banco. Em 2021, essa carteira representava 94% das operações; hoje, o crédito veicular responde por cerca de 52% da carteira, conforme balanços ao BC. Fontes do setor sinalizam que veículos financiados são, em parte, de baixa qualidade, com juros elevados.
Fundos e operações relevantes
Um dos fundos comprados envolveu o Hermon, em que a holding de Macedo adquiriu 741 milhões de reais das cotas do Digimais. A auditoria aponta que a operação pode não refletir condições de mercado, com remuneração incompatível e dependência de aporte dos controladores. O Hermon estima ter 2,2 bilhões de reais a receber em ações judiciais questionadas pela Justiça desde a década de 1990.
Outro ponto envolve o fundo Tabor, do qual o Digimais é investidor. Em abril de 2026, o Tabor possuía 960 milhões de reais em créditos, com 575 milhões em inadimplência, incluindo parcelas vencidas há mais de 720 dias. Esse cenário é visto como crítico pelo mercado.
Mudanças na gestão e possíveis negócios
O grupo de Macedo realizou mudanças na diretoria do Digimais, substituída no ano passado por profissional indicado pela igreja, incluindo Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil. O BTG Pactual confirmou interesse em uma eventual aquisição do banco, sujeita a condições e a um eventual leilão, com possibilidade de apoio do FGC.
O banco não comenta oficialmente as operações com fundos de investimentos e a holding de Edir Macedo não divulgou posicionamento. O BTG ressalta apenas o interesse em uma aquisição ainda a depender de avaliação competitiva e de garantias financeiras.
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