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Brasil tem energia limpa, mas falta desenvolvimento

Brasil produz energia limpa, mas sem expansão de transmissão e políticas territoriais não transforma geração em desenvolvimento regional

Atividades de maior valor agregado não ficam nos locais em que a energia é produzida - (crédito: Tibico Brasil/Divulgação BNB)
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  • A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88,2% de fontes renováveis, uma das mais limpas do mundo.
  • O Nordeste lidera a geração eólica e a expansão renovável, mas a transmissão não acompanha, prejudicando a absorção do volume produzido.
  • Estima-se perdas bilionárias com curtailment, quando turbinas são desligadas ou geração fica ociosa mesmo com vento ou sol.
  • O desafio não é apenas ampliar a energia, mas transformar essa produção em desenvolvimento econômico nas regiões geradoras.
  • A ideia de powershoring propõe levar indústrias para perto das fontes de energia, usando instrumentos regulatórios como sinal locacional e marco do hidrogênio de baixa emissão, porém falta coordenação entre geração, transmissão e investimento produtivo local.

A matriz elétrica brasileira fechou 2024 com 88,2% de fontes renováveis, entre as mais limpas do mundo. O Nordeste lidera a geração eólica, respondendo pela fatia mais expressiva da expansão renovável na última década. Porém, a rede de transmissão não acompanhou esse ritmo, limitando o aproveitamento da energia disponível.

A capacidade de exportação da região ainda é insuficiente para absorver o volume projetado de geração. Com isso, parte da produção fica sem uso, já levando a perdas bilionárias por curtailment, quando turbinas são desligadas ou painéis deixam de gerar.

Esse é o ponto central: a energia é produzida no semiárido e no Cerrado nordestino, transmitida por longas distâncias e consumida em centros industriais. A renda, empregos qualificados e atividades de maior valor agregado permanecem em outras regiões.

Estados como Piauí, Bahia e Rio Grande do Norte se destacam na geração, mas a renda domiciliar per capita ainda fica abaixo da média nacional. O PIB e os empregos formais sobem na construção dos parques, mas o efeito não se sustenta após a conclusão das obras.

O problema não é a fonte de energia, mas o modelo de implantação. Grandes complexos geram eletricidade exportável, mas não criam cadeias produtivas locais robustas. A relação entre geração, transmissão e atração industrial segue sem coordenação efetiva.

Para ampliar o impacto econômico local, cresce a ideia do powershoring, levar a indústria para perto das fontes de energia limpa. Setores como fertilizantes, amônia verde, processamento mineral e siderurgia de baixo carbono entram no debate.

Há demanda de conexão para grandes cargas nas próximas décadas, o que já sinaliza potencial para novos investimentos produtivos. Ainda assim, falta uma política capaz de ligar essa demanda à transformação econômica dos territórios cedentes de vento e sol.

Instrumentos regulatórios existentes poderiam orientar investimentos para regiões com excedente renovável. O marco do hidrogênio de baixa emissão abre espaço para agregar valor à produção nacional, mas não se traduz em política territorial robusta.

A lacuna não é de informação, mas de decisão política. É preciso vincular novos projetos de geração a compromissos concretos de desenvolvimento local. Leilões, licenciamento e regulação ainda não articulam essa visão de território.

O Brasil já avançou na construção de uma matriz elétrica limpa e competitiva. Agora é preciso decidir entre exportar energia entre regiões ou usar essa vantagem para gerar prosperidade próxima aos locais de produção.

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