- O Banco Digimais, ligado à Igreja Universal, usou fundos de investimentos para limpar parte de seu balanço, removendo carteiras de financiamentos com inadimplência de centenas de milhões de reais.
- Um fundo citado é o Tabor, no qual o banco é investidor; em abril de 2026, o Tabor tinha R$ 960 milhões em créditos, com R$ 575 milhões em inadimplência e mais de R$ 200 milhões em parcelas com atraso há até 720 dias.
- A auditoria independente questionou operações envolvendo fundos de direitos creditórios (FIDCs), apontando que 60% de inadimplência no Tabor não é normal e sugerindo encerramento do fundo.
- Aholding de Edir Macedo adquiriu R$ 741 milhões das cotas do Digimais em um Fundo de Direitos Creditórios chamado Hermon, existência de pareceres legais mas com questionamentos sobre condições de mercado e remuneração.
- Em meio a negociações, o BTG Pactual demonstra interesse na compra do Digimais, com possibilidade de leilão e participação do Fundo Garantidor de Créditos (FGC); o banco não confirmou o fechamento do negócio.
O Banco Digimais, controlado pelo bispo Edir Macedo, está no centro de uma crise que se arrasta há mais de um ano. A instituição, já à venda, teria utilizado fundos de investimentos para encobrir perdas multimilionárias e reduzir o peso de carteiras inadimplentes em seus balanços. Documentos obtidos pelo Estadão mostram operações envolvendo ativos de crédito e precatórios.
Conforme apurado, o banco transferiu carteiras de financiamentos com alta inadimplência para fundos de investimento dos quais é cotista, com o objetivo de limpar demonstrações financeiras. Além disso, houve venda de precatórios não pagos à holding ligada a Macedo, em operação que deixou auditores em alerta.
O Digimais é pouco conhecido pelo público e não possui agências nem serviços de Pix. Até 2020, operava como Banco Renner; Macedo passou a ser acionista em 2009, quando o banco foi rebatizado. A carteira de financiamentos de veículos figura entre as maiores áreas de atuação, com avanço no crédito consignado.
Uso de fundos de direitos creditórios
Em meio aos documentos, o fundo Tabor aparece como investidor em créditos veiculares do Digimais, com a própria instituição integrando o portfólio do fundo. Em abril de 2026, esse conjunto somava R$ 960 milhões, dos quais R$ 575 milhões estavam inadimplentes. Parcelas em atraso superiores a 720 dias ultrapassavam R$ 200 milhões.
Segundo balanços, em dezembro de 2025 o Digimais registrou R$ 366 milhões em créditos vencidos na linha de veículos, mas o fundo Tabor já mostrava R$ 479 milhões de inadimplência. Especialistas indicam que esse nível de atraso caracteriza situação de alto risco e pode indicar dificuldades de recuperação.
Analistas entrevistados pelo jornal apontam prática incomum: a utilização de FIDs (Fundos de Investimentos em Direitos Creditórios) para mascarar perdas. Eles destacam que bancos costumam usar FIDCs para gestão de capital, não para encobrir problemas graves de inadimplência, o que eleva o alerta sobre governança.
Hermon e controvérsias
Outra operação envolve a compra de cotas do Fundo Hermon, que detém direitos a receber indicações judiciais históricas envolvendo indenizações da antiga Vale. A auditoria independente questiona a normalidade de condições de mercado nessa transação, citando remuneração imprevisível e dependência de aporte de controladores.
A holding de Macedo teria adquirido R$ 741 milhões de cotas do Digimais no Hermon. O relatório ressalva que o negócio pode não refletir práticas de mercado usuais e que depende de recebimento por parte da adquirente ou aporte dos controladores.
Mudanças na gestão e interesse do BTG
Desde a aquisição, em 2020, houve mudanças na diretoria, com a entrada de executivos ligados à Igreja Universal. A presidência ficou com Aldemir Bendine, ex-presidente da Petrobras e do Banco do Brasil. Bendine já foi condenado em processo de propina cuja condenação foi posteriormente anulada.
Nos últimos meses, o BTG Pactual manifestou interesse na aquisição do Digimais, afirmou à reportagem ter assinado documentos vinculantes para uma possível compra de parte da carteira de clientes. O BTG ressalta que a operação depende de condições precedentes e de um processo competitivo, com possível participação do Fundo Garantidor de Créditos.
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