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Crédito ampliou consumo, mas classe C continua na pobreza, afirma geógrafo

Crédito ampliou consumo na periferia de São Paulo, mas não tirou a população da pobreza; endividamento crônico compromete renda e futuro

Kauê Lopes dos Santos, professor da Unicamp e autor de Parcelado
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  • O geógrafo Kauê Lopes dos Santos afirma que o crédito ampliou o consumo na periferia de São Paulo, mas não tirou essa população da pobreza, que persiste com carências como saneamento, lixo e segurança.
  • A nova classe C consumiu eletrodomésticos e eletrônicos, porém continua cronicamente endividada, com parcelas que comprometem grande parte da renda.
  • O livro Parcelado aponta que o Desenrola, política de renegociação de dívidas, aumenta renda de curto prazo e consumo, mas não resolve as causas estruturais do endividamento.
  • Em comparação com décadas passadas, o consumo acelerado a partir de 2005 gerou euforia, mas levou a ciclos de crédito com juros altos e oportunidades desiguais para as classes menos favorecidas.
  • Infraestrutura pública, especialmente telecomunicações e energia, e equipamentos de cultura como o CEU, são determinantes para a mobilidade social, que depende de políticas públicas mais amplas e contínuas.

Em entrevista ao UOL, o geógrafo Kauê Lopes dos Santos, da Unicamp, analisa o impacto do crédito no consumo da periferia de São Paulo. Ele lança o livro Parcelado pela editora Fósforo e questiona se a nova classe C realmente deixou a pobreza para trás.

Para o pesquisador, o acesso a bens como celular, TV e geladeira é evidente, mas não basta para superar carências estruturais. Segundo ele, saneamento, coleta de lixo, segurança, saúde, educação e lazer seguem precários, mantendo a pobreza sob nova aparência.

Nos dados, a chamada nova classe C aparece fortalecida por políticas anticíclicas que ampliaram o consumo. Contudo, a renda é progressivamente comprometida por parcelas que pesam sobre quase toda a renda familiar, elevando inadimplência e insolvência.

Crédito e consumo na prática

Kauê Lopes dos Santos aponta que o consumo de eletrodomésticos melhora a vida objetiva, mas não elimina a pobreza. A obra aponta uma pobreza com novas formas de carência, principalmente em serviços públicos.

Ele descreve uma relação de endividamento crônico entre famílias periféricas, muitas vezes negras, que recorrem a empréstimos para manter o padrão de consumo. O estudo inclui cerca de 200 entrevistas que revelam essa situação.

O autor cita casos de inadimplência que levam pessoas a recorrer a consignados de parentes, inclusive aposentados, prática que ele chama de inédita na história do trabalho assalariado.

Endividamento e políticas públicas

O livro critica o Desenrola, programa de renegociação que, segundo o pesquisador, reintroduz o consumo sem atacar causas estruturais do endividamento. O objetivo é ampliar renda do trabalho, mas não resolve o problema de base.

Santos também comenta impactos da redução de jornada de trabalho. Ele aponta que dias livres podem ser ocupados com bicos em plataformas digitais, aumentando renda e consumo sem promover mobilidade social.

Infraestrutura e urbanização

O geógrafo questiona a eficácia de políticas públicas pontuais, como o Minha Casa Minha Vida, que devem criar empregos e aquecer a economia, sem resolver causas estruturais da pobreza. O Desenrola aparece como medida semelhante, com efeito limitado a longo prazo.

Ao considerar a qualidade da infraestrutura, Santos destaca que telecomunicações e eletricidade são bem avaliadas, enquanto áreas de lazer e segurança sofrem críticas. Infraestrutura de baixa qualidade reforça a dependência de serviços privados.

Cidadania, consumo e território

A pesquisa enfatiza que a periferia demanda atenção a equipamentos culturais e educacionais. O CEU recebe reconhecimento, mas o mapa de cultura da região permanece desproporcional, com igrejas e bares ganhando espaço.

O autor reforça a ideia de que o morador da periferia não é apenas operário. Hoje, muitos atuam como prestadores de serviço, comerciante ou motorista, ampliando a necessidade de políticas que acompanhem novas formas de ocupação do território.

Perspectivas futuras

A mobilidade social permanece como aspiração, mas o futuro pode depender de políticas públicas que enfrentem as raízes do endividamento. Se as parcelas dominarem o orçamento, a renda será sequestrada e a percepção de pobreza pode persistir.

Kauê Lopes dos Santos conclui que, sem tratar infraestrutura, educação e serviços, a população ficará presa a um ciclo de consumo que não resolve questões estruturais, mantendo a desigualdade. Fonte: UOL.

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