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Qualidade do crédito está piorando? A resposta é mais complexa

Relatórios indicam realidades distintas: bancos S1 reduzem exposição a crédito arriscado, enquanto fintechs elevam inadimplência em cartões e empréstimos, pressionando o sistema

A qualidade do crédito está piorando? A resposta não é tão simples
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  • Dois relatórios, do Itaú BBA e da Goldman Sachs, apresentam leituras diferentes sobre a qualidade do crédito: mudança de mix com fintechs e bancos menores ganhando participação e piora da inadimplência entre bancos S3.
  • Grandes bancos vêm reduzindo a exposição a créditos de maior risco, enquanto bancos digitais ampliam atuação nesses produtos, elevando o NPL nesses segmentos.
  • Para crédito a famílias, bancos S1 tiveram queda do NPL de 4,1% para 3,5% entre o quarto trimestre de 2022 e o quarto trimestre de 2025; bancos S2 a S5 subiram de 5,5% para 6,7%.
  • No cartão de crédito, S1 caiu de 7,7% para 7,0%, enquanto S2 a S5 subiram, chegando a 9,7%.
  • A Goldman aponta aumento do NPL de cartões nos S3, de 10,6% em dezembro para 16,9% em abril, gerando dúvidas sobre a origem dos números; mesmo assim, o Itaú afirma que os grandes bancos não apresentam problema de crédito.

A qualidade do crédito no sistema financeiro brasileiro voltará aos holofotes após a publicação de dois relatórios que analisam se a deterioração é real e por que ela ocorreria. As leituras divergem sobre o papel de bancos tradicionais, fintechs e bancos digitais nesse movimento.

No Itaú BBA, o analista Pedro Leduc aponta que o aumento da inadimplência e do endividamento das famílias pode refletir uma mudança de mix estrutural. Segundo ele, fintechs e bancos menores ganham participação de mercado em produtos de maior NPL.

A Goldman Sachs, por sua vez, observa dados de abril que indicam piora relevante na inadimplência entre os bancos do grupo S3, que inclui Carrefour, Inter, Mercado Pago, C6, BRB e BMG. O ganho de peso dessas instituições eleva o alerta no setor.

Para Leduc, convivem duas realidades. Grandes bancos reduzem a exposição a crédito mais arriscado, enquanto bancos digitais ampliam o portfólio nesses produtos, com NPL historicamente maior. Assim, a composição de crédito muda.

Ele afirma que neobanks criaram uma nova oferta de crédito ao consumidor, com custos menores e modelos de ecossistema que aceitam clientes de renda menor e maior risco. Isso eleva o NPL agregado.

Em cartões de crédito, bancos não-S1 responderam por cerca de 60% do crescimento entre 2020 e 2025. Em empréstimos pessoais, cerca de 70%. A consequência, segundo o analista, é uma fatia crescente da indústria com inadimplência mais elevada.

Leduc observa que não-S1 representam cerca de 45% da carteira de cartões, mas 55% do estoque de inadimplência. Em empréstimos pessoais, a participação é de 55% da carteira versus 60% do NPL. A presença de novos entrantes impacta os níveis médios.

Para ele, tais dinâmicas devem guiar a interpretação dos dados de inadimplência do BC na avaliação de perspectivas dos bancos. A leitura é de cautela na avaliação de cada instituição.

Entre os bancos S1, a qualidade do crédito tem melhorado. O NPL em crédito a famílias caiu de 4,1% no 4º tri de 2022 para 3,5% no 4º tri de 2025. Nos S2 a S5, o indicador subiu de 5,5% para 6,7% no mesmo período.

No crédito a cartões, a tendência acompanha: S1 registra queda de 7,7% para 6,5%, enquanto S2 a S5 avançam de 9% para 9,7%. A leitura é de mudança na composição da carteira entre os segmentos.

O estudo de Leduc também destaca o endividamento das famílias. O aumento da oferta de crédito eleva o numerador, sem equivalente aumento na renda. Ele não vê necessariamente mais alavancagem nas mesmas famílias, mas mais famílias tomando crédito.

Enquanto isso, os bancos grandes reduzem a exposição a tomadores de maior risco, com carteiras de crédito ao consumo em queda como porcentual do PIB. O crescimento fica mais puxado por produtos direcionados.

Na leitura da Goldman Sachs, o grande alerta vem do salto no NPL de cartões nos bancos S3: de 10,6% em dezembro para 16,9% em abril. O relatório não explica a origem, gerando hipóteses entre investidores.

Alguns gestores apontam possibilidade de erro nos dados ou de mudanças abruptas em carteiras compradas por instituições, como BRB e potenciais operações com portfólios de terceiros. Outros citam uma maior deterioração em bancos S3.

A avaliação sobre o que aconteceu é dinâmica. Um lado vê fintechs captando clientes de menor renda com maior lucratividade, o que pode mascarar riscos. O outro lembra que grandes bancos parecem manter sólida a qualidade de crédito.

O debate continua sem uma conclusão única. O conjunto de dados ainda não oferece, de forma conclusiva, um diagnóstico definitivo sobre a evolução da qualidade do crédito no Brasil.

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