- Bancos brasileiros estão mais rigorosos ao conceder crédito ao agro, exigindo garantias mais fortes para facilitar a execução mesmo em reestruturações judiciais.
- O número de pedidos de recuperação judicial no setor foi de quase 2.000 no ano passado, segundo a Serasa Experian, mais de dez vezes o registrado em 2021.
- Empréstimos para a safra atual trazem estruturas de garantias mais rígidas; o Banco do Brasil informou que novos créditos respondem por apenas um terço dos pagamentos esperados em maio.
- A Caixa Econômica Federal tem adaptado a garantia e informa carteira de crédito ao agro de 64,9 bilhões de reais em março, equivalente a 2,2% da carteira total, com foco em alienação fiduciária quando possível.
- Mesmo diante de custos financeiros elevados e inadimplência crescente, o Brasil permanece como potência agrícola, com exportações do agro de 169,2 bilhões de dólares no ano anterior e debates sobre renegociação de dívidas e seguro rural para reduzir custos de financiamento.
Bancos brasileiros passaram a endurecer o crédito rural após um aumento expressivo de recuperações judiciais no setor. A medida busca reduzir o risco de inadimplência diante de um volume bilionário de crédito não recuperado, segundo a Serasa Experian.
Entre as mudanças está a exigência de garantias mais firmes, com possibilidade de execução mesmo durante reestruturações. A prática difere dos mecanismos usados anteriormente pelos bancos para assegurar o crédito.
A recuperação de crédito ficou mais difícil porque produtores rurais recorreram à justiça em ritmo recorde no agronegócio, com quase 2.000 pedidos no ano passado, aponta a Serasa. O número supera em mais de dez vezes o registrado em 2021.
Boa parte dos pedidos visa evitar a tomada de propriedades dadas em garantia pelos bancos, em um cenário de preços de commodities puxados pela alta recente. Após o pico de investimentos, a queda de preços impactou liquidez dos produtores.
No momento atual, empréstimos para a safra em andamento passaram a incorporar estruturas de garantias mais rígidas. O Banco do Brasil destacou que as novas linhas representam a maior parcela do crédito agro liberado desde meados de 2025, embora ainda sejam apenas parte do total esperado.
O banco informou que houve menor pontualidade no atendimento a metas de recebimento em abril, o que refletiu o cenário de inadimplência e cobrança. O BB não comentou de forma adicional sobre o tema.
A Caixa Econômica Federal também tem adotado garantias mais estritas, com foco na alienação fiduciária onde cabível. O banco detalhou que a carteira de crédito para o agro somou R$ 64,9 bilhões em março, equivalente a 2,2% do total.
O Bradesco, tradicional financiador do setor, vinculou parte do aumento de provisões contra a inadimplência a empréstimos de longo prazo já concedidos. A instituição não comentou a reportagem.
Contexto e impactos no custo do crédito
Mesmo com o aperto, o Brasil continua sendo uma referência na produção agrícola global, com exportações no ano anterior de US$ 169,2 bilhões, um aumento de 3% ante 2024. O agronegócio respondeu por quase metade das exportações em 2025.
Os custos financeiros pressionam margens do setor. A Selic atingiu patamar elevado, com o ciclo de cortes ainda lento diante de pressões externas, o que agrava o custo de capital para produtores e bancos.
Especialistas sinalizam que margens mais estreitas elevam o risco de inadimplência em caso de novas quedas de safra. Alguns defendem renegociações com prazos mais longos e juros subsidiados como alternativa viável.
Parlamentares e o governo discutem um projeto de renegociação de dívidas de produtores contratadas até o fim do ano anterior, com condições de pagamento mais favoráveis. Outros itens avaliam regulação do seguro rural para riscos climáticos.
A ideia é reduzir a exposição dos bancos a eventos climáticos adversos, o que pode contribuir para menores custos de financiamento no setor. Enquanto isso, pressões geopolíticas elevam preços de fertilizantes, acrescente a incerteza para produtores.
A guerra no Irã e seus impactos globais continuam a influenciar o cenário econômico. A expectativa é de que as discussões sobre políticas de crédito e renegociação avancem no Congresso nas próximas semanas.
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